O secretário-geral comunista disse esta quinta-feira que o resultado do PCP nas autárquicas se deveu a um “quadro de hostilização” feita ao longo dos últimos meses, criticando os “cangalheiros e frustrados” que vaticinam “até à exaustão” a morte do partido.

Não se pode omitir o quadro de hostilização que acompanhou a intervenção do PCP e da CDU ao longo dos últimos meses e a sua negativa influência na afirmação do nosso trabalho, da nossa obra, da nossa intervenção e do nosso próprio projeto”, afirmou Jerónimo de Sousa durante a sua intervenção num comício em Matosinhos sobre o tema “Defender, repor e conquistar direitos”.

O líder comunista falou ainda de uma “campanha sistemática de ataque anticomunista que, com pretextos diversos, procurou avivar preconceitos, atribuir ao PCP posicionamentos e valores que não são seus” e de uma “ação persistente de desvalorização do papel do PCP na vida política nacional, silenciando a sua atividade e iniciativas, incluindo dando a terceiros e projetando noutros o que era o resultado da sua iniciativa e trabalho”.

Num discurso de quase meia hora no Cine-Teatro Constantino Nery em Matosinhos, que foi pequeno demais para todos os militantes que queriam ouvir o líder do PCP, Jerónimo de Sousa salientou que nesta “ação geral de ataque” e “desvalorização” do partido houve um “papel assumido pelos outros principais partidos”, nomeadamente PS e BE.

“Vimos uma intervenção do PS a desenvolver uma ação a partir dos seus candidatos e alguns dirigentes partidários, particularmente concentrada em municípios de maioria da CDU, de ataque à gestão da CDU baseada em argumentos falsos e muitas vezes ofensivos”, atirou o secretário-geral, criticando também a “opção do BE de fazer da redução da influência da CDU o seu objetivo principal, não olhando a meios para, por via da falsificação e mesmo da calúnia, denegrir a CDU e o poder local”.

Após a batalha eleitoral agora travada, que resultou na perda pela CDU de 10 presidências de câmaras municipais, Jerónimo de Sousa salientou que aquela força política conquistou “mais de meio milhão de votos” e que nada “afrouxa a determinação do PCP de continuar a intervir para responder aos interesses e aspirações dos trabalhadores e do povo”.

Já sobre “os vaticínios anunciados e repetidos até à exaustão da morte e declínio do PCP”, o líder comunista aproveitou para “dizer a esses frustrados cangalheiros” que o partido irá continuar na luta, “nas horas boas e nas horas más”.

A primeira nota sobre os resultados eleitorais que aqui queríamos deixar, e para lá de todas as considerações e balanços do dever e haver de maiorias municipais, é a de que os resultados obtidos pela CDU continuam a confirmá-la como a grande força de esquerda no poder local”, sublinhou.

Jerónimo de Sousa destacou ainda a “confirmação da força da CDU em importantes concelhos do país” bem como as “posições nas autarquias em que assume a presidência - 24 municípios e 139 freguesias” e a “significativa presença da CDU no conjunto dos órgãos autárquicos" com "171 vereadores, 619 eleitos em Assembleias Municipais e 1.665 em Assembleias de Freguesia”.

Já sobre a derrota em 10 autarquias – nove municípios para o PS e uma para um movimento de independentes – o secretário-geral reiterou ser esta uma “perda, sobretudo para as populações, para o serviço público, para os direitos dos trabalhadores das autarquias”.

Ainda em análise aos resultados da noite de domingo, Jerónimo de Sousa assinalou o “falacioso argumento de combate a ‘maiorias absolutas’ concebido para retirar votos à CDU e que merecia uma mais ampla denúncia”.

Denunciou ainda como “muitas pessoas que dirigiam palavras de reconhecimento” pelo papel do PCP na derrota do governo de direita e que não “tinham tomado a consciência de que a possibilidade de assegurar que esse caminho prosseguisse, e se ampliasse, residia no reforço do PCP e do PEV, e não no PS”.

“E isso pesou no resultado eleitoral e ampliou-se à medida que o PS anunciava que precisava de mais força para prosseguir a sua ação governativa. Em certa medida, e para uma parte da população, as eleições locais foram transformadas em eleições de natureza nacional”, criticou.

Antecipando as próximas semanas, Jerónimo de Sousa deixou uma mensagem: “aqueles que fazem o aproveitamento negativo dos resultados eleitorais contra o PCP, só podem esperar a nossa ainda mais decidida determinação na dinamização da ação política e do reforço do PCP para as batalhas futuras que aí estão”.

A CDU - que junta comunistas, ecologistas e independentes - obteve um dos piores resultados de sempre em eleições autárquicas baixando de 34 para 24 presidências de municípios. Almada (Setúbal) e Castro Verde (Beja) foram dois dos municípios que estavam sob a sua liderança desde 1976, ano em que se realizaram as primeiras eleições autárquicas em democracia, e que passaram para os socialistas. Já o PS garantiu o melhor resultado desde 1976, conquistando, sozinho, 159 das 308 câmaras, incluindo a da capital, mas sem maioria absoluta.

PCP não se deixará "condicionar por pressões" sobre caminho a seguir

O secretário-geral do PCP garantiu ainda esta quinta-feira que o partido não se deixará “condicionar por pressões” ou “conselhos envenenados” que o caminho a seguir é o da consolidação das medidas tomadas que levaram ao crescimento económico do país.

Ouvimos há pouco tempo o Primeiro-ministro a afirmar que este crescimento económico, esta evolução positiva, se devia muito à reposição de rendimentos e direitos. Se é essa a conclusão que tira, tem de extrair outra lição. Então, é preciso aprofundar esse caminho e não travar o passo, ou paralisar esse processo de recuperação e reposição de direitos”, afirmou Jerónimo de Sousa durante o comício em Matosinhos.

Para o líder comunista, a consolidação das medidas tomadas e a indispensabilidade do seu aprofundamento não se compadecem com “o arrastamento e adiamento de respostas e soluções, como pretende o Governo PS”.

Por isso mesmo, acrescentou, “nada justifica que se continue a resistir ao necessário aumento dos salários, particularmente à fixação do salário mínimo nacional em 600 euros em janeiro de 2018”.

Uma semana antes de ser apresentado o Orçamento do Estado de 2018, Jerónimo de Sousa frisou que “é esse o caminho que é necessário prosseguir” e que “os tempos que aí vêm terão de ser tempos de dar novos passos e avanços, para melhorar as condições de vida dos trabalhadores e do povo e não ficar amarrados a constrangimentos que limitam ou impeçam esse rumo”.

Que ninguém se iluda. Como já tivemos oportunidade de afirmar, não nos deixaremos condicionar por pressões, por conselhos envenenados”, sublinhou o secretário-geral do PCP, confidenciando ter ouvido “alguns comentadores, inimigos figadais do partido, a darem conselhos”.

E acrescentou: “É obra, camaradas. São os inimigos a dizer como o PCP deve fazer em relação ao futuro. Não iremos nessa conversa, faremos aquilo que o partido decidir (…) não nos desviaremos do nosso compromisso com os trabalhadores e o povo”.

Jerónimo lembrou que “nestes quase dois anos da nova fase da vida política nacional (...) foi possível, ainda que de forma limitada, fazer avançar medidas para responder a alguns dos problemas mais sentidos pelo povo português”.

Para o líder do Partido Comunista, persistem, porém, “os problemas de fundo do país”, bem como no plano político, onde se verifica a “ação retrógrada, reacionária e revanchista” do PSD e do CDS e um PS “vinculado a opções de defesa dos interesses do grande capital e de submissão externa”.

Portugal precisa, por isso, de uma política que “recusando o regresso a um passado recente de brutal agressão a direitos e de abdicação nacional, também não fique prisioneira das imposições externas e dos interesses do grande capital como pretende o governo minoritário do PS”.

Entre as “opções que se assumem como objetivos de desenvolvimento que o País deve assumir e que devem estar presentes na elaboração do Orçamento do Estado” do próximo ano, Jerónimo de Sousa destacou o aumento das pensões e reformas, aumento do investimento público, a justa tributação do grande capital, o alívio das camadas da população com mais baixos rendimentos e a revogação das normas gravosas da legislação laboral.

“É esse o caminho que é necessário prosseguir. Os tempos que aí vêm terão de ser tempos de dar novos passos e avanços, para melhorar as condições de vida dos trabalhadores e do povo e não ficar amarrados a constrangimentos que limitam ou impeçam esse rumo”, frisou.