O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, acusa o Governo de fazer «propaganda» e de «torcer e retorcer» as estatísticas para apresentar «bons resultados», sobre a descida da taxa de desemprego.

«Muitas vezes, os governos gostam de torcer e retorcer as estatísticas para apresentar bons resultados de uma realidade que é diferente», disse o líder comunista.

Trata-se de «uma propaganda que resulta em termos de impacto na opinião pública», mas o que é necessário é «ir perguntar aos 170 mil, particularmente jovens, que estão em cursos de formação e em estágio, se se consideram empregados».

«Já não pergunto pelos 350 mil portugueses que emigraram durante estes três anos, mas a verdade é que não foi criado mais emprego. Reduziram o desemprego nestas circunstâncias», criticou.

Portanto, a diminuição da taxa de desemprego mais não é que «um ensaio estatístico» que «não corresponde à realidade do país», argumentou o líder do PCP, que falava aos jornalistas durante uma visita à Feira de Agosto, em Grândola, hoje à noite.

«Não estou a falar dos que desistiram, que desanimaram, que perderam o fundo de desemprego. Cito este facto: Hoje, 170 mil portugueses estão em estágio e em cursos de formação sem futuro praticamente nenhum», insistiu.

Por isso, «quando falamos em manipulação estatística, apresento esta prova concreta», sublinhou.

Aludindo à própria emigração, Jerónimo de Sousa ironizou: «Eu até acredito, a continuar este ritmo de emigração no nosso país, que qualquer dia a percentagem do desemprego continue a baixar».

«Mas isto é fictício, não corresponde a empregos criados, não aumentámos a nossa capacidade produtiva, a produção nacional ou a riqueza».

Os cursos de formação e estágios, frisou, podem ser entendidos «como almofada social», mas não é assim que se «resolve o problema estrutural do desemprego em Portugal».

Na visita à feira da vila alentejana, Jerónimo de Sousa discursou também num jantar de militantes e simpatizantes do PCP e abordou a hipótese de Portugal poder vir a necessitar de um novo Orçamento retificativo.

Questionado pelos jornalistas, após o jantar, o secretário-geral do PCP afirmou não ser «profeta», mas acentuou que, caso se confirmem «as piores perspetivas das consequências» do processo do BES, as quais «ainda estão por apurar», será «muito provável» que o Governo «tenha de recorrer a um novo orçamento retificativo».

Jerónimo de Sousa disse que, esta semana, na conferência de imprensa em que foi apresentado o orçamento retificativo, a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, «disse que não sabia» ainda qual o alcance do impacto do processo do BES, «mas que ia ter consequências».

«Daquilo que ouvi, à pergunta concreta de se já foi medido o alcance das consequências do processo do BES, a ministra dizia que não sabia, mas admitia que existiriam consequências. Creio que foi esta a expressão, até um bocado gaga, o que é contra o seu próprio estilo tão desembaraçado, mas percebeu-se isto», disse Jerónimo de Sousa, acrescentando: «Veremos, veremos».

Portanto, «não é difícil prever que as metas, os objetivos podem falhar, caso se confirme os problemas que resultam do processo do BES, que ainda está por clarificar, por investigar, por considerar, particularmente no plano do Orçamento do Estado», frisou.