O PCP reconhece que o programa do novo Governo expressa a vontade de mudança e a ideia de que as medidas impostas na legislatura anterior “foram erradas”. Jerónimo de Sousa sublinhou que o documento "acolheu um conjunto de propostas que podem contribuir para melhorar a vida dos portugueses" e que por isso, abre "uma janela de esperança". Vincou, assim, o apoio da bancada comunista ao Governo, mas não sem questionar o primeiro-ministro sobre o quadro europeu e os “constrangimentos externos” que “têm sido dogmas intocáveis para o PSD e CDS” .

“O programa terá de enfrentar a contradição entre os objetivos estruturantes de contratação de emprego, de crescimento económico e desenvolvimento no quadro dos constrangimentos externos que nos são impostos e que têm sido dogmas intocáveis para o PSD e CDS. É necessário ultrapassar a divergência entre uma realidade aprisionada em regras e a necessidade de afirmar o nosso desenvolvimento soberano.”


A apreensão de Jerónimo serviu de mote para António Costa destacar a "visão diferente" dos dois partidos sobre a Europa e, simultaneamente, aquilo que os une nesta matéria: a necessidade da Europa criar condições para que o euro não acentue as assimetrias entre as economias dos países.  

"É sabido que temos uma visão diferente da Europa, mas ambos partilhamos a preocupação da necessidade da Europa criar condições para que a moeda única não sirva para acentuar as assimetrias entre as diferentes economias.[...] O PCP disse o que não esta disponível para apoiar e o que o PCP não está disponível para apoiar é o que nós não estamos disponíveis para propor."


Costa expressou a confiança dos socialistas no apoio da bancada parlamentar comunista, com palavras que provocaram risos na bancada da direita. "Podemos confiar no PCP para governar ao longo desta legislatura."

Antes, logo no início da sua intervenção, Jerónimo de Sousa acusou a direita de uma "estéril guerrilha política", lembrando as "surpresas desagradáveis" de PSD e CDS: "a devolução da sobretaxa que era um embuste", "a execução orçamental que desmente as promessa feitas quanto ao défice" e "o Banif que é mesmo um motivo de preocupação." 

"PSD e CDS exercitam as diferenças e as divergências programáticas entre PS e PCP como se tivessem descoberto a pólvora, como se da nossa parte alguma vez tivesse havido ocultação e abdicação da identidade."


PEV pede fim da "política de mentira"


Por sua vez, a líder parlamentar do Partido Ecologista "Os Verdes" pediu o fim da "política de mentira" de PSD/CDS-PP, com vista à realização da alternativa política acordada por PS, BE, PCP e PEV, no parlamento.

"Para trabalhar para essa mudança há uma primeira coisa a fazer: uma política de verdade. Acabou a política da mentira e da ilusão, não pode continuar mais!", exigiu Heloísa Apolónia, citando a emigração, a pobreza ou a suposta devolução da sobretaxa de IRS e o crescimento económico como assuntos em que os governos de Passos Coelho e Paulo Portas mentiram.

A deputada ecologista sugeriu que PSD e CDS-PP "sabem que o Governo [do PS] tem legitimidade política" e que insistem no argumento contrário porque "aquilo que não querem é que se prove é que pode existir em Portugal uma política diferente daquela que eles fizeram, é o pavor que têm".

"PSD e CDS procuraram criar um modelo onde, para se sustentar, era fundamental que uma faixa determinada da população caísse e se mantivesse na pobreza, se habituasse a esse nível, um modelo de serviço ao grande poder económico e financeiro."