O secretário-geral do PCP acusou esta sexta-feira o Governo de sacrificar sempre os mesmos, beneficiando grupos económicos, mas o primeiro-ministro contrariou-o e afirmou-se como um líder de executivo com a «coragem de pedir mais aqueles que tem mais».

«Como justifica mais esta escandalosa benesse? Acabou essa conversa de que os sacrifícios estão a ser distribuídos equitativamente. Não pode mentir aos portugueses quando afirma que os sacrifícios estão a ser repartidos por todos. Não faça planos para mil anos. Quem tem a última palavra é o povo português e essa opção há de lhe sair cara", afirmou Jerónimo de Sousa, no debate quinzenal, em São Bento.

O líder comunista tinha citado um relatório do Tribunal de Contas que informa sobre uma «omissão de 1.045 milhões de euros em IRC, por benefícios atribuídos a Sociedades Gestoras de Participações Sociais (SGPS)», as quais, segundo o deputado do PCP, «controlam as empresas dos grandes grupos económicos».

«Não conheço esse relatório, portanto não tenho condições para poder comentar. O que posso garantir é que o Governo tem respeitado a lei fiscal, nomeadamente no regime das SGPS. Não há nenhuma evidência de que o Governo tenha alterado a lei ou criado condições para que a lei não fosse cumprida», respondeu Passos Coelho.

O primeiro-ministro citou então medidas, designadamente a contribuição extraordinária e os escalões de IRS, para se assumir como o chefe de um Governo que «pela primeira vez em Portugal teve a coragem de pedir mais àqueles que têm mais».

«Quem tem mais em Portugal pagou mais», disse, esclarecendo que «não há nenhum auto contentamento relativamente ao país ou ao Governo», mas antes «uma constatação ao olhar para os dados do emprego e da economia, da balança externa e da execução orçamental», a de que «os resultados estão na direção indicada».

Passos Coelho assumiu que «não há nenhum milagre», embora «os resultados demonstrem que o país está finalmente a crescer» e considerou ser «natural, quando se está a fazer sacrifícios muito elevados, dar o devido valor aos resultados importantes que são obtidos».

Jerónimo de Sousa tinha criticado a postura de «autoelogio» e a espécie de «fezada de estar no bom caminho», do «milagre económico», patente no Governo da maioria PSD/CDS-PP, apontando o «estado de choque» dos cidadãos com mais «uma avalancha de cortes nos rendimentos» em janeiro e o impacto da emigração para a baixa no desemprego.

«A redução do desemprego não significa recuperação, mas emigração. Durante estes dois anos e meio foram destruídos mais de 300 mil postos de trabalho», afirmou, classificando o comportamento do executivo como um mero «exercício estatístico que não corresponde à realidade que estamos a viver».

O primeiro-ministro argumentou que «o desemprego tem vindo a descer, não tanto quanto gostaria, mas está a descer», admitindo não estar satisfeito por ser «muito elevado», sobretudo nos jovens, com «quase o dobro da incidência e é quase intolerável».

«Ela (emigração) existiu, mas sabemos também que, entre o segundo e o terceiro trimestre (de 2013), houve uma estabilização do número de (cidadãos) ativos. A emigração foi compensada com ativos que entraram no mercado. Temos mais emprego do que tínhamos antes. Não fico satisfeito, não faço para isso planos para mil anos. Agora, não posso negar a evidência de que o emprego está a aumentar. As pessoas têm mais oportunidades do que há um ano, há dois ou há três», afirmou.