O secretário-geral do PCP acusou este sábado o Governo de se preparar para «dar mais pancada» aos portugueses e considerou «uma fraude» o novo ciclo económico de que fala o Governo após o programa de assistência financeira.

Jerónimo de Sousa falava no final do Encontro Nacional do PCP, em Almada, que se destinou a preparar as eleições europeias de 25 de maio, num discurso longo, com cerca de 32 minutos, em que criticou o discurso de Pedro Passos Coelho, na sexta-feira à noite, na abertura do Congresso Nacional do PSD.

Numa intervenção dura contra a política do Governo, mas também com críticas ao PS, o líder comunista atacou também a recente operação de mercado para venda de dívida pública portuguesa a dez anos, sustentando que se tratou de «um negócio colossal para o cartel dos megabancos, proporcionando lucro limpinho e sem osso para o grande capital».

Falando após o cabeça de lista da CDU nas próximas eleições europeias, João Ferreira, o secretário-geral do PCP citou algumas frases proferidas por Pedro Passos Coelho na sua primeira intervenção no congresso do PSD.

«Dizia ontem [sexta-feira] Passos Coelho que é natural algumas medidas que se tenha de levar a cabo tenham efeito redobrado em quem já fez tantos sacrifícios, [porque] quando se começa a levar alguma pancada, a que dói mais é quando estamos mais doridos. Por isso digo, camaradas, eles deram pancada e querem continuar a dar mais», disse Jerónimo de Sousa, antes de caracterizar o líder do CDS, Paulo Portas, como «o ministro da propaganda do Governo».

De acordo com Jerónimo de Sousa, Paulo Portas está «incumbido de criar a aparência que o país fecha um ciclo de ingerência estrangeiro e que se abre outro a 17 de maio já libertado das garras impositivas da Comissão Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI)».

«Até meterem um relógio em tiquetaque. Mas a mentira tem perna curta. O novo ciclo que anunciam é uma fraude», concluiu, dando depois como exemplo o mais recente relatório do FMI sobre a atual conjuntura e as perspetivas futuras da economia portuguesa.

«O próprio FMI disse aquilo que toda a gente já sabia, que a viragem que o Governo anunciara é uma treta e tem pés de barro. Esse reconhecimento [do FMI] é também a confirmação do falhanço do pacto de agressão (memorando da troika) e um argumento para continuar a política de saque e de espoliação», advertiu Jerónimo de Sousa.

Jerónimo de Sousa criticou também os últimos resultados das operações do Estado Português de emissão de dívida nos mercados internacionais, advogando que se tratou de «lucro limpinho e sem osso para o grande capital».

«Uma operação em que quem ganhou foi o cartel dos megabancos. Mais um negócio colossal para os senhores do dinheiro, que o comparam a 0,25 por cento no Banco Central Europeu, depois investindo-o a dez anos a uma taxa de 5,1 por cento. Daqui a uns anos, quem vier atrás que feche a porta», disse.

O secretário-geral do PCP criticou também a controvérsia em torno dos cenários que se colocam a Portugal no final do atual programa de assistência financeira.

«Querem fazer crer que a grande questão do país é o modelo de saída, ou à irlandesa ou o programa cautelar, como se um e outro não significassem mais gravosas medidas ditas de austeridade e a colonização do país perante a oligarquia financeira e diretório das grandes potências», apontou o secretário-geral do PCP.

Na sua intervenção, tal como fizera antes o cabeça de lista da CDU às eleições europeias, também o líder comunista se referiu de forma crítica ao «consenso» entre o PS e as forças políticas do Governo.

«Com o Governo do PS andávamos de PEC e em PEC. Com este Governo andamos de pacto em pacto. Mesmo que lhe chamem monitorização reforçada, ou outro nome para levar a água ao moinho dos protagonistas do consenso, não há saída limpa sem renegociação da dívida», defendeu Jerónimo de Sousa.