O secretário-geral comunista mostrou-se hoje convencido de que o Governo da maioria PSD/CDS-PP está a negociar com os credores internacionais a «coisa» que se vai seguir ao atual programa de assistência económico-financeira.

«Tudo indica que, mesmo negando, o Governo tem em curso contactos exploratórios, negociações que visam uma... "coisa". Eu digo uma "coisa" porque já lhe têm chamado segundo resgate, programa cautelar, seguro cautelar», afirmou Jerónimo de Sousa, após encontro com trabalhadores no Clube Ferroviário de Lisboa.

O líder do PCP fora questionado sobre o facto de o executivo da Irlanda, também sob ajuda externa, ter anunciado que o acordo com Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional terminará em dezembro e que não haverá necessidade de um programa cautelar para o regresso aos mercados.

«Enfim, chamemos-lhe a "coisa", mas que alguma coisa vai haver, vai, certamente», acrescentou Jerónimo de Sousa.

Jerónimo rejeita crescimento económico

O secretário-geral comunista reconheceu, entretanto, que se verificou um abrandamento da recessão, após serem conhecidos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), mas deixou claro que o Governo não pode falar em crescimento económico.

«O Governo, nem ninguém, está autorizado a dizer que há sinais de crescimento económico. Quanto muito pode falar num abrandamento da recessão», disse. Para o líder do PCP, «se o ano encerrasse em setembro», verificar-se-ia «uma recessão de 2,7 por cento» e, «com este orçamento (proposto para 2014), esta tendência de agravamento vai manter-se».

«(Este pequeno abrandamento) isto resulta porque o Governo teve de devolver o subsídio de férias e permitiu algum aumento da procura interna. Se tivesse sido levado por diante, significaria mais recessão. É essa a mensagem deste orçamento do Estado», continuou.

Pressão «inaceitável»

Mas o líder comunista português também acusou o Fundo Monetário Internacional (FMI) de tentar pressionar princípios constitucionais, no seu último relatório sobre o programa de assistência financeira, considerando tratar-se de uma «chantagem inaceitável».

«Aqui está o FMI no seu melhor, a exigir aquilo que o capital exige há décadas: liquidar a contratação coletiva, baixar salários, poder despedir com arbítrio, como entenderem. Não é por acaso que foca 36 vezes a Constituição da República porque a nossa Constituição consagra o direito ao trabalho e a proibição de despedimentos», disse Jerónimo de Sousa, após encontro com trabalhadores, no Clube Ferroviário de Lisboa.

Para o secretário-geral do PCP, que comentava o documento sobre as oitava e nona avaliações daquilo que designa como «pacto de agressão», «a intenção é pressionar a própria Constituição da República, num processo de chantagem, de ingerência, que ofende a soberania e independência» do país.

«Portugal não precisa do FMI para lhe dizer para como é que trata do seu futuro, da sua Lei Fundamental. No mínimo, deveria haver um ato de indignação das instituições que verificam que uma entidade estrangeira já quer considerar a nossa Constituição como um perigo, um obstáculo. É inaceitável», concluiu.