Da Praça da Figueira à Rua das Portas de Santo Antão a marcha foi curta. Mas a CDU promete uma longa luta para travar os planos dos maiores partidos nesta campanha. Perante um Coliseu cheio, Jerónimo de Sousa insurgiu-se contra a “nada inocente campanha de bipolarização”, os discursos das “maiorias absolutas” (com Cavaco Silva pelo meio) e uma soberania à mercê “de Bruxelas”. 

Estes têm sido temas dos discursos do líder comunista nos últimos dias. Não foi por isso surpresa que saltassem para os pontos chaves do alinhamento do arranque oficial da campanha. Surprssa, sim, foi a ausência Jerónimo de Sousa na concentração  marcada para a Praça da Figueira e depois na marcha para o Coliseu. 

Rita Rato e Heloísa Apolónia, que se juntou a ela no Rossio, encabeçaram o grupo, garantindo que o secretário-geral do PCP “tem muita confiança nas mulheres da CDU”. Já dentro da sala de espectáculos, depois de um concerto da Ronda dos Quatro Caminhos, a líder do PEV apelaria ao voto na coligação de que faz parte, contra as “historias de mentiras” de PSD e CDS. "O pacto do PSD e do CDS não é com o povo", disse Heloísa, garantindo que o pacto dos partidos da PAF é com Bruxelas e com o poder económico. E colou a estes partidos o PS, classificando os socialistas como uma "espécie de genérico", com o mesmo "princípio ativo" de sociais-democratas e populares. 

O mote estava lançado para Jerónimo de Sousa.  Sempre muito aplaudido, o líder comunista reforçou as palavras de Heloísa Apolónia, juntando ao grupo o PS, que acusou de dizer “esfola” onde a coligação PAF diz “mata”.

“Dizem-nos que não entendemos a realidade. Entendemos sim. Quando afirmamos a defesa da soberania nós fazemos uma opção. Aquela que está na Constituição. Que a soberania reside no povo e não aquelas que PS, PSD e CDS têm nos seus programas, a considerar que o nosso futuro passa pela imposição de Bruxelas ou de quaisquer entidades estrangeiras”, afirmou.


Depois de enumerar a longa lista de problemas do país, Jerónimo de Sousa disse que "essa foi sempre a opção estratégica que orientou PSD, PS e CDS: restaurar os privilégios do grande capital e o seu domínio sobre a sociedade portuguesa". 

Disse ainda que com estes partidos no poder haverá a "manutenção da injustiça fiscal nos próximos anos e a perpetuação do aumento brutal de impostos sobre o trabalho". 

Garantiu também que na segurança social se pode "esperar uma modificação do sistema" e que, quanto ao trabalho, haverá "o agravamento para pior das leis". Na saúde, adivinhou a "manutenção das taxas moderadoras" e cortes no SNS. Na educação e nos serviços públicos disse que continuará "a política de reconfiguração do Estado, ao serviço dos grandes interesses económicos".

Mas além das “políticas de direita”, Jerónimo de Sousa lançou-se também contra a estratégia de campanha dos maiores adversários. Primeiro a bipolarização, a que diz ter-se assistido “no ambiente criado à volta dos debates entre Costa e Passos, transformados em duelos decisivos”. Depois, a dramatização sobre a necessidade de uma maioria absoluta, em nome da estabilidade governativa, criticando o papel de Cavaco Silva neste capítulo. “Todos eles tiveram maiorias absolutas (…) o grande problema é que desestabilizaram a vida aos portuguesas”, apontou.