O candidato designado a presidente da Comissão Europeia (CE) e o eurodeputado comunista João Ferreira travaram-se, esta quarta-feira, de razões num debate no Parlamento Europeu, com Jean-Claude Juncker a afirmar que não precisa que lhe expliquem a realidade de Portugal.

No quadro da ronda de discussões realizadas entre terça-feira e hoje com os diferentes grupos políticos da assembleia europeia, antes da votação do seu nome para a presidência do executivo comunitário, que terá lugar no hemiciclo de Estrasburgo a 15 de julho, Juncker ouviu muitas críticas no debate com o Grupo da Esquerda Unitária Europeia, família que integra as delegações do PCP e Bloco de Esquerda, e que lhe declarou abertamente a oposição à sua designação para a presidência da Comissão.

Insurgindo-se contra muitas das críticas que lhe foram dirigidas, e refutando designadamente o «rótulo» de neo-liberal e capitalista, Juncker mostrou-se irritado em alguns períodos do debate, incluindo durante a intervenção do eurodeputado português João Ferreira, quando este fez uma pausa para que o candidato do Partido Popular Europeu (PPE) à sucessão de Durão Barroso «desligasse» o telemóvel, que manuseava, e o instou a voltar a colocar os auscultadores para ouvir a tradução da sua interpelação.

Depois de criticar o papel desempenhado em Portugal pela troika, «que o senhor (Juncker) apoiou», e «chamar-lhe a atenção para a realidade» do país, referindo-se ao estado da economia e à escalada da dívida, João Ferreira fez uma pausa entre duas questões ao político luxemburguês, ao ver que este estava sem os auscultadores e manuseava o telemóvel.

«Vou fazer uma pausa para que possa desligar o telemóvel», disse o deputado, retorquindo Juncker que respondia a uma mensagem da sua mulher.

«Eu sei fazer duas coisas em simultâneo: escutá-lo e escrever tudo está bem», disse o político luxemburguês.

«E percebe português também? Aguardava que colocasse os auscultadores», insistiu João Ferreira, ao que Juncker respondeu que cresceu rodeado de portugueses.

«Cresci na parte industrial do Luxemburgo e os meus vizinhos são portugueses. Sei muitas coisas de Portugal, por isso pode ser mais breve, porque eu conheço» a realidade do país, disse, visivelmente agastado, acrescentando depois, já na fase de respostas aos deputados, que, enquanto presidente do Eurogrupo - na altura em que Portugal pediu assistência financeira - lutou mesmo contra a redução do salário mínimo em Portugal.

«Interessei-me de muito perto e numa base diária pela situação na Grécia e em Portugal. Tenho muitos amigos nesses países, e, durante o período em que fui presidente do Eurogrupo, telefonei várias vezes por dia a testemunhas de rua para sentir a «temperatura» desses países, e sei bem as derrapagens que houve, os erros de percurso acumulados (...) Não fui eu que obriguei na Grécia e em Portugal a baixar o salário mínimo nacional, bem pelo contrário. No Eurogrupo lutei contra essa redução, e fiquei muito surpreso por ver que outros países ditos pobres e que o são foram aqueles que exigiram que tal política fosse aplicada», disse.

Juncker reforçou que, «portanto, o debate na Europa foi um pouco mais complicado do que se insinua em acusações sem fundamento e sem qualquer reflexão, que traduzem mesmo alguma ignorância do assunto», e, referindo-se a diversas outras interpelações de deputados do Grupo de Esquerda, pediu respeito».

«Por quem me julgam e por quem se julgam? Acham que sou um filho de um milionário, que nunca trabalhou, que nasci num berço de ouro? Não é o caso», disse, manifestando-se agastado por ser classificado como um «capitalista mau».

Questionado, tanto por João Ferreira como pela eurodeputada Marisa Matias, do Bloco de Esquerda, sobre a possibilidade de renegociação da dívida pública portuguesa, Juncker não abordou a questão, tendo-se queixado por mais de uma vez do pouco tempo disponível para responder às muitas perguntas que cada eurodeputado lhe dirigia.