A deputada do Partido Socialista, Isabel Moreira, criticou, esta segunda-feira, o Presidente da República por ter colocado “exigências” ao PS para a formação de um Governo apoiado pelos partidos mais à esquerda, quando nunca o fez com o PSD e o CDS.

Num painel de análise no jornal das 19:00 da TVI24, onde também participaram Mariana Mortágua (BE) e João Oliveira (PCP), Isabel Moreira disse que Cavaco Silva está a fazer o país “perder tempo”, quando o que tinha de fazer era dar posse “à única alternativa possível”.

“Estas ‘exigências’ (…) nunca foram postas à direita. Quando Passos Coelho foi indigitado eu não vi, sendo um Governo minoritário, Cavaco Silva pedir-lhe garantias de estabilidade financeira e de Orçamentos viabilizados.”


“Houve eleições dia 4 [de outubro], a seguir a isso, Cavaco Silva já sabia que o Governo de Passos Coelho não tinha futuro e faz-nos perder tempo desde então. Depois o Governo caiu, constitucionalmente um Presidente não pode fingir que nada se passou [e] a única coisa que tinha a fazer era ouvir a alternativa de esquerda que se formou. Tem de fazer a separação entre a sua pessoa, aquilo que ele gosta, ou que não gosta, e aquilo que é o cargo, e (…) dar posse à única alternativa possível. Tudo o que temos estado a ouvir desde aí são fantasias que não fazem sentido nenhum.”

Para a deputada do PS, Cavaco Silva está a tentar “salvar a face”, tentando demonstrar que a alternativa de esquerda “é frágil”.

“Cavaco Silva não gosta da alternativa de esquerda, que é um governo de incidência parlamentar, e, portanto, quer salvar um pouco a face. Como perdeu este tempo todo, como a alternativa é evidente, cola o discurso à direita. Quer demonstrar à força que é uma alternativa frágil, centrando-se nos acordos e não naquilo que lhe é apresentado, que é um programa de Governo que responde a todas as perguntas que lhe foram feitas hoje.”

Uma ideia também defendida pela deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, que acrescentou, ainda, que Cavaco Silva não quer admitir “que o seu próprio projeto político falhou”.

“Esta manobra do Presidente da República não passa disso mesmo, de uma manobra para salvar a face, perante uma decisão inevitável que tem de tomar. Cavaco Silva não quer dar posse a um Governo alternativo à direita, porque isso seria admitir que o seu próprio projeto político falhou. Ainda mais nas suas mãos e pelas suas mãos.”


Mariana Mortágua criticou, também, as ‘exigências’ feitas ao PS, uma vez que já estão expressas no programa do Governo do PS, e porque algumas não fazem sequer parte das funções de um Presidente da República.

“Cavaco Silva vem exigir aquilo que já está garantido no programa do Governo [de iniciativa] do PS. Ao vir exigir aquilo que já está garantido, está a dizer que vai dar posse ao Governo de António Costa, mas tem de salvar a face, fingindo que faz umas exigências, para dizer por que é que emendou a mão."


“Por outro lado, as exigências que faz ultrapassam muito aquilo que são as funções do Presidente da República. É um bocadinho ridículo [Cavaco Silva] pedir a um Governo que garanta estabilidade financeira. O Presidente da República não tem de se intrometer em qualquer questão programática. Isso é uma questão de poder Executivo, [e] nenhum Executivo tem como programa a instabilidade financeira e, portanto, é ridículo pedi-lo”.
 
Também o deputado do PCP, João Oliveira, disse que o Presidente está apenas a tentar “salvar” os partidos do último Governo, procurando “um pretexto” que crie um obstáculo à solução apresentada pelo PS:

“O Presidente da República procura um pretexto para fazer aquilo que tem feito até agora, que é por um lado procurar, por todas as formas, salvar o PSD e o CDS da derrota eleitoral que sofreram e da perda de condições para continuarem a governar (…), e por outo lado criar um pretexto para obstaculizar a concretização da solução governativa que existe, que não existe [só] agora, nem há dois dias, mas desde o dia em que foram ouvidos os partidos pela primeira vez.


João Oliveira foi mais longe e acrescentou que se estas condições tivessem sido colocadas ao PSD e ao CDS, o XX Governo nunca teria tomado posse.

“Se o Presidente da República tivesse colocado ao PSD e ao CDS metade dos critérios que já exigiu para outra solução governativa poder ser concretizada, só com metade nunca poderia ter dado posse a um Governo PSD/CDS. Que fosse só o critério de poder entrar em funções.”