O presidente do PSD disse, nesta segunda-feira, que o Estado falhou no apoio psicológico às vítimas do incêndio de Pedrógão Grande, adiantando ter tido conhecimento de que um suicídio ocorreu por falta desse apoio.

Tenho conhecimento de vítimas indiretas deste processo, de pessoas que puseram termo à vida, em desespero”, sinal de que “não receberam a tempo o apoio psicológico que lhes devia ter sido prestado”, declarou o líder dos sociais-democratas aos jornalistas após uma visita ao quartel dos bombeiros de Castanheira de Pera.

Passos Coelho afirmou ter conhecimento de pelo menos um suicídio, ocorrido na região, praticado por um familiar de pessoas que morreram no incêndio que deflagrou na semana passada em Pedrógão Grande.

E exigiu ainda do Governo a aprovação de medidas que visem indemnizar as famílias das vítimas do incêndio de Pedrógão Grande que morreram ou ficaram feridas em espaços públicos.

“O Estado não tomou ainda essa iniciativa”, sublinhou.

O líder social-democrata realçou a necessidade de o Governo avançar com “um mecanismo relativamente às vítimas à guarda do Estado”, que morreram em “vias públicas”, sobretudo na estrada nacional 236-1, no dia 17 de junho, onde 47 pessoas perderam a vida.

Na sua opinião, poderá o executivo de António Costa aprovar um conjunto de medidas urgentes, tal como aconteceu em 2001, da parte do Governo de António Guterres, na sequência da queda da ponte de Entre-os-Rios, sobre o rio Douro, em que morreram mais de 50 pessoas.

Passos admitiu que, desta vez, seja “um mecanismo mais robusto”, através de um decreto-lei, e sublinhou que “o Estado falhou” na sua obrigação de “garantir a segurança e a vida” dos cidadãos.

O Estado falhou e ainda está a falhar”, frisou, ao anunciar que, caso o Governo não aprove as referidas medidas, o PSD “não deixará de as recomendar” na Assembleia da República ou de tomar uma “iniciativa legislativa” com esse objetivo.

Cabe ao executivo “evitar que as famílias das vítimas tenham de demandar o Estado em tribunal” a fim de serem indemnizadas.

Passos considerou, ainda, que “problemas evidentes de comunicação” poderão explicar a morte de dezenas de pessoas durante o incêndio.

As pessoas estavam a fugir porque se viram desoladas” e algumas “foram encaminhadas para uma situação que se revelou fatal”

Questionado sobre explicações para as presumíveis falhas do Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP), no primeiro dia do incêndio, afirmou não querer “poupar esse papel” ao Governo.

O país precisa de uma explicação cabal para aquilo que se passou”, no dia 17 de junho, “para que as pessoas reganhem confiança no próprio Estado”, defendeu.

Quanto a Constança Urbano de Sousa, Passos assumiu que o PSD “não aparecerá a pedir a demissão” da ministra da Administração Interna ou de outros membros do Governo, mas “não deixará de fazer a imputação de responsabilidades” de natureza política.

Importa, na sua opinião, que os cidadãos “recuperem a confiança no Estado”, depois de “uma tragédia como nunca aconteceu” em Portugal.

Antes da visita a Castanheira de Pera, o líder do PSD visitou o Atlético Clube Avelarense, em Avelar, concelho de Ansião, a Câmara Municipal e a Misericórdia de Pedrógão Grande, onde se reuniu com o autarca Valdemar Alves e o provedor João Marques, respetivamente.

Os incêndios que deflagraram na região Centro, há uma semana, provocaram 64 mortos e mais de 200 feridos, e só foram dados como extintos no sábado.

Mais de dois mil operacionais estiveram envolvidos no combate às chamas, que consumiram 53 mil hectares de floresta, o equivalente a cerca de 75 mil campos de futebol.

A área destruída por estes incêndios - iniciados em Pedrógão Grande, no distrito de Leiria, e em Góis, no distrito de Coimbra - corresponde a praticamente um terço da área ardida em Portugal em 2016, que totalizou 154.944 hectares, segundo o Relatório Anual de Segurança Interna divulgado pelo Governo em março.

Além de Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, concelhos também atingidos pelas chamas de Pedrógão Grande, o fogo chegou ainda aos distritos de Castelo Branco, através da Sertã, e de Coimbra, pela Pampilhosa da Serra.

O incêndio de Góis, que também começou no dia 17, atingiu ainda Arganil e Pampilhosa da Serra, sem fazer vítimas mortais.

PSD questiona Ministério da Saúde sobre apoio psicológico

O PSD questionou hoje o Ministério da Saúde sobre o apoio psicológico às populações afetadas pelos incêndios da semana passada na região centro, questionando se houve psicólogos retirados do local e se está previsto algum reforço.

Estas questões foram hoje dirigidas ao Ministério da Saúde por oito deputados da bancada social-democrata, num texto que tem como primeiro subscritor Marco António Costa.

Os deputados do PSD sustentam que "tem sido manifesta a insuficiência de recursos humanos no apoio psicológico às populações" e que importa esclarecer "com que apoios psicológicos podem contar as pessoas atingidas", para que estas "possam beneficiar da proteção à saúde a que têm direito", e para que "os cidadãos, em geral, recuperem a confiança no Estado que tão clamorosamente falhou no seu dever de defender vidas humanas".

Na pergunta dirigida ao Governo, os sociais-democratas questionam "qual o número de psicólogos que o Ministério da Saúde deslocou para junto das populações afetadas pelos incêndios ocorridos nos municípios de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Góis", e se houve "em algum momento, a retirada de psicólogos por parte de algum organismo público".

Marco António Costa, Miguel Santos, Ângela Guerra, Luís Vales, Cristóvão Simão Ribeiro, Fátima Ramos, Isaura Pedro e José António Silva pedem ao Ministério da Saúde que indique "o número de psicólogos que se encontram presentemente ao serviço nas unidades prestadoras de cuidados de saúde do Serviço Nacional de Saúde" naqueles municípios da região centro.

"Está previsto algum reforço dos profissionais referidos na pergunta anterior? Se sim, de quantos profissionais e para quando? Quantas equipas de apoio psicológico domiciliário prestarão, e a partir de que data, atendimento às pessoas afetadas pelos incêndios ocorridos nos municípios de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Góis, e com que frequência e regularidade?", questionam ainda.

No texto dirigido ao Ministério da Saúde, os deputados do PSD sustentam que "tem sido manifesta a insuficiência de recursos humanos no apoio psicológico às populações", invocando declarações de responsáveis locais, "como é o caso do autarca de Pedrógão Grande" segundo as quais "diversos apoios em psicólogos terão, entretanto, sido retirados do terreno e da região".

Os sociais-democratas mencionam que o diretor-geral de Saúde afirmou "que o Serviço Nacional de Saúde tem capacidade de resposta a esta população" e que o ministro da Saúde também assegurou que "vai haver apoio domiciliário, apoio de saúde pública, apoio de cuidados de saúde primários".

"Não podendo estas declarações modificar o passado, devem as mesmas representar, ao menos, um firme e inquestionável compromisso para o futuro", consideram.