A queda do Governo português, votada pelos partidos de esquerda, tem destaque na imprensa alemã desta quarta-feira, mas as primeiras páginas foram reservadas maioritariamente às notícias sobre a morte do antigo chanceler alemão Helmut Schmidt.

O Die Welt publicou um artigo intitulado "Oposição de esquerda derruba Governo português de centro-direita". O jornal diário escreveu ainda que "132 de 230 deputados votaram numa moção de rejeição proposta pelos socialistas contra o Governo".

O texto, sem chamada de capa, é ilustrado com uma foto do aperto de mão entre António Costa e Passos Coelho, após a votação da moção no parlamento português, que contou com um acordo de incidência parlamentar entre PS, PCP e BE.

O diário Bild destaca na primeira página "o derrube" do Governo português.

O jornal com maior circulação na Alemanha, escreve que "a oposição de partidos de esquerda derrubou o Governo de centro-direita de Passos Coelho através de uma moção de censura". O matutino faz ainda referência à "resistência contra os planos de poupança" como a razão do voto no parlamento nacional.

"Governo português derrubado depois de 11 dias" é o destaque de capa do jornal Frankfurter Allgemein.

O jornal diário refere que o futuro do Governo português está nas mãos do Presidente da República, escrevendo que "Aníbal Cavaco Silva tem de decidir se indigita o líder do PS, António Costa, para primeiro-ministro ou se Passos permanece no cargo até novas eleições".

O Frankfurter Allgemein refere ainda que as novas eleições podem acontecer no início do verão de 2016.

O diário mais conotado com a esquerda, o Die Tageszeitung, titulou "Governo de centro direita derrubado" e acrescentou que "os partidos de esquerda querem apoiar o líder dos socialistas no futuro".

O Süddeutsche Zeitung destaca as mudanças políticas em Portugal na primeira página, reportando que "oposição de esquerda derruba Governo de centro direita".
 

Pouco destaque em Espanha


A imprensa espanhola dá pouco destaque nas capas à queda do Governo em Portugal, preferindo destacar o tema "quente" em Espanha, o processo de independência na Catalunha, e as exigências britânicas para permanecer na União Europeia.

O jornal El País coloca um pequeno destaque na primeira página, titulando "Esquerda portuguesa acaba com o Governo conservador". Na página cinco, o correspondente do jornal em Lisboa descreve o debate de terça-feira no parlamento português e realça a promessa dos socialistas de "cumprirem as metas orçamentais", que interpreta como um compromisso em relação às políticas europeias.

Os editoriais do diário são dedicados ao processo de independência na Catalunha (o presidente catalão, Artur Mas, falhou na terça-feira a primeira tentativa de ser reeleito no parlamento regional) e as exigências do primeiro-ministro britânico, David Cameron, quanto à permanência do Reino Unido na União Europeia.

O El Mundo escreve sobre a situação política em Portugal na página 18 (sem destaque de capa), salientando que o discurso do líder socialista, António Costa, no parlamento "foi intenso e marcou um momento decisivo na história política de Portugal", uma vez que pode ser a primeira vez que o país tem "um Governo apoiado pelos quatro partidos da Esquerda" (PS, PCP, Bloco de Esquerda e Os Verdes).

Também os editoriais do El Mundo se dedicam à questão catalã e britânica.

Já o ABC, conotado com a direita, titula "A esquerda radical derruba Passos num pacto anti-austeridade".

O jornal fala na "incerteza" que se segue - em antecipação a uma decisão do Presidente da República, Cavaco Silva - e escreve que "o momento decisivo que se vive em Portugal pede 'a gritos' a rápida designação de um primeiro-ministro".

O mesmo correspondente do ABC em Lisboa salienta que "Portugal entra numa era de instabilidade" e sublinha que "o pacto [entre o PS e os partidos à sua esquerda] apenas contempla um mínimo quanto a orçamentos e que, a qualquer momento, [o BE e o PCP] poderiam voltar às andanças anti-europeias".

Os editoriais do ABC também são sobre a Catalunha e David Cameron, mas um dos seus colunistas, José María Carrascal, dedica um curto "postal" sobre a moção de rejeição do Governo em Portugal, com uma foto de António Costa.

Carrascal escreve que a moção "reflete a irresponsabilidade de um socialismo que, a coberto da 'vontade de mudança' (...) sacrifica a estabilidade política, o progresso económico e os seus próprios princípios. E sugere que o mesmo se poderá passar nas eleições gerais espanholas de 20 de dezembro deste ano, ao concluir "Portugal não está assim tão longe".

Outro jornal associado ainda mais à direita, o La Razón, puxa o tema para capa, com um título no mesmo estilo do ABC: "A aliança radical de esquerda derruba o Governo de Passos Coelho".

Na imprensa económica, o Expansión adianta que os mercados de valores "estão expostos à mudança de Governo em Portugal", enquanto o El Economista salienta em capa que "Os grupos de esquerdas derrubam Governo de Portugal com apenas 11 dias".

O jornal escreve que a esquerda portuguesa "quer gastar mais e travar privatizações".
 

Feriado em França


A aprovação da moção de rejeição do Governo PSD/CDS-PP e a queda do executivo português não merece destaque nas capas desta manhã dos principais diários franceses.

Feriado em França, vários jornais não chegaram aos quiosques e dos que chegaram apenas o Le Figaro publica uma breve notícia sobre Portugal, na página 6, escrita pelo correspondente em Madrid e intitulada "Portugal: A esquerda faz cair o Governo de direita".

"Unidos pela primeira vez em quarenta anos de democracia, os partidos da esquerda querem acabar com a política de austeridade", escreve o jornal, especificando que "os três partidos da esquerda portuguesa associaram as suas vozes na terça-feira para derrubar o Governo conservador de Pedro Passos Coelho, dez dias após o primeiro-ministro ter tomado posse".

Quanto ao Le Parisien, a edição impressa não publica artigos sobre a situação política em Portugal, mas online pode encontrar-se um artigo intitulado "Portugal: o Governo de direita aguentou-se menos de duas semanas", em que se lê que o executivo de Pedro Passos Coelho "entra para a história como o mais efémero de Portugal" e que "a aliança [de esquerda] é inédita em 40 anos de democracia" no país.

Também a edição impressa do Libération não publica textos sobre a queda do Governo em Portugal, mas a edição online contempla o artigo "Portugal: Unida, a esquerda provoca a queda do Governo de direita".

"A direita clama vitória mas poderá governar? - Perguntava o Libération a 5 de outubro, após a vitória dos conservadores nas eleições legislativas em Portugal. A resposta surgiu esta terça-feira: não. O conjunto da esquerda portuguesa, maioritária no parlamento, votou uma moção que rejeita o programa do Governo de direita, provocando a sua demissão apenas onze dias depois da sua entrada em funções", descreve o jornal.

O económico Les Echos não chegou aos quiosques esta manhã, mas a edição online também publica um artigo intitulado "Portugal: Queda do Governo de direita", assinado pelo correspondente em Madrid, que escreve que "o Governo de Pedro Passos Coelho durou onze dias, o mandato mais curto da história democrática portuguesa".

O vespertino Le Monde publica na edição online uma entrevista a Fernando Rosas, "um dos ideólogos do Bloco de Esquerda", e um artigo intitulado "Em Portugal, a esquerda provoca a queda do Governo e quer ‘virar a página da austeridade', avançando que "uma tal aliança é inédita em Portugal, onde socialistas e comunistas se guerreiam desde o fim da ditadura".
 

Ingleses falam em aliança "sem precedentes"


Também sem ser em primeira página, a imprensa britânica adjetivou a aliança de esquerda que derrubou o Governo de direita como "sem precedentes", "histórica" ou "improvável" e faz comparações com a Grécia.

"O moderado Partido Socialista, de centro-esquerda, formou uma aliança sem precedentes com o mais pequeno Partido Comunista e o radical Bloco de Esquerda, ligado ao partido anti-austeridade da Grécia, Syriza, e usaram um voto parlamentar sobre políticas para forçar o Governo a demitir-se na terça-feira", lê-se no Guardian.

Porém, ao contrário da Grécia, onde o Syriza é o principal partido do Governo, sublinha o diário, os comunistas e os bloquistas só desempenharão um papel de apoio.

O Telegraph considera esta aliança "histórica" e antevê um confronto com a União Europeia, porque a posição anti-austeridade dos partidos de esquerda levou a prometer reverter algumas das políticas do Governo de centro-direita de Passos Coelho e de Paulo Portas.

"Apesar de ter formalmente saído do programa de assistência, a economia mantém-se sobrecarregada com a maior dívida na Europa. Os seus antigos credores em Bruxelas e o FMI avisaram que o país precisa de continuar um programa rígido de cortes da despesa e aumento de impostos para tapar o buraco nas suas finanças públicas", afirma o diário.

Caso o Presidente da República portuguesa, Aníbal Cavaco Silva, seja "forçado a fazer uma inversão de marcha dramática" e indigitar o líder do PS, António Costa, para primeiro-ministro, "Portugal juntar-se-ia à Grécia e tornar-se-ia na segunda economia do sul da zona euro com forças da extrema-esquerda no poder", diz ainda o Telegraph.

O Daily Mail escreve, online, que a "aliança inesperada" da esquerda prometeu aliviar a austeridade.

"A queda do Governo foi uma derrota política para a estratégia de austeridade da zona euro de 19 países, que exigiu reformas económicas a Portugal após o resgate, que foram reflectidas nas políticas rejeitadas", afirma.

O Times destaca Catarina Martins, do BE, que está prestes a desempenhar um papel de protagonista no poder em Portugal, depois de uma carreira de atriz. A deputada bloquista "formou uma aliança surpresa com os partidos socialista e comunista para afastar o Governo conservador interino de Pedro Passos Coelho, que só ficou no poder 11 dias".

Este jornal também refere os receios manifestados de que a recuperação económica portuguesa seja posta em causa "e alguns receiam que possa ir pelo mesmo caminho que a Grécia, que precisou de três resgates desde 2010".

Na edição impressa do Financial Times, este cenário é negado por Mário Centeno, o economista que contribuiu para o programa eleitoral do PS e considerado o mais forte candidato a ministro das Finanças.

"Vamos ficar no caminho da consolidação fiscal. Não é a direção que combatemos, mas a velocidade", vincou, em entrevista ao diário financeiro britânico.

(foto arquivo)