O eurodeputado centrista Nuno Melo defendeu esta quinta-feira o uso da força militar pela União Europeia para eliminar as redes de tráfico de pessoas no norte de África, depois de “demonstrado que o simples patrulhamento do Mediterrâneo não é suficiente”.

Nuno Melo falava à imprensa, à margem do 7.º Congresso da Confederação de Agricultores de Portugal, em Lisboa, a propósito do Conselho Europeu extraordinário que decorre em Bruxelas para adotar medidas que impeçam que mais imigrantes morram no mar.

“O que sucede, para além da calamidade humanitária, tem também na base um negócio hediondo de quadrilhas e fenómenos de organizações que, à escala internacional, se aproveitam do flagelo e das necessidades de outros para fazerem dinheiro, e hoje, as guerras em muitos países potenciam esses fenómenos migratórios.”

“Não me choca nada que, na origem, se combata este fenómeno para que se consiga evitar que as pessoas morram em atos que, em muitos casos, considero homicidas. Se está demonstrado que o simples patrulhamento clássico do Mediterrâneo, desde logo através das marinhas dos países mais afetados, não é suficiente, então, alguma coisa mais tem de ser feita.”


E acrescentou: “Eu acredito sincera e genuinamente que o combate na origem dessas organizações criminosas pode ter alguma eficácia”.

O centrista mostrou-se também favorável a que esse combate seja feito “com parcerias entre a União Europeia e países como a Turquia, a Síria e todos os outros de onde vêm muitas destas pessoas - que vêm de toda a África, não só do norte - para que deixem de ser assim vitimadas”.

Para Nuno Melo, outro aspeto a que a União Europeia deve prestar atenção é que, a par de uma “resposta humanista”, tem de haver um dispositivo de segurança “em tempos de terrorismo internacional”.

“Se, por um lado, tem de haver humanismo nesta resposta, também não podemos de repente ter uma perspetiva romântica e achar que todas as pessoas que querem entrar são apenas motivadas pela legítima vontade de melhorar as suas condições de vida. Na maior parte dos casos, poderá ser assim, mas há outras realidades que têm de ser combatidas.”




Também o eurodeputado social-democrata Paulo Rangel considerou que «mais dia, menos dia» a União Europeia terá de usar a força militar para combater o tráfico de migrantes que, depois, morrem em naufrágios no Mediterrâneo, a caminho da Europa.

Inquirido sobre as medidas que os 28 Estados membros adotarão na cimeira extraordinária, o deputado ao Parlamento Europeu disse que, “para as questões de curto prazo”, as soluções lhe parecem positivas.

“Para as questões de curto prazo, penso que as soluções que se diz estão a ser apuradas para a cimeira são soluções boas: em primeiro lugar, reforçar o patrulhamento e os meios de salvamento, porque aquilo que é imperativo neste momento no Mediterrâneo é salvar vidas – não podemos deixar morrer as pessoas. Sob esse ponto de vista, julgo que vamos ter algum progresso.”

“Do ponto de vista da qualidade humanitária e dignidade dos campos de acolhimento de quem chega, também penso que podemos ter progressos.”


Sobre a questão do combate ao tráfico, foi contundente: “Aí não tenho dúvidas de que nós vamos ter de usar a força, mais dia, menos dia. Agora, a questão é saber se queremos usá-la já ou se queremos usá-la mais tarde, porque há dois pontos a considerar”.

O primeiro ponto, indicou, é que “é preciso identificar os traficantes e é preciso combater esse mal na origem, mas – e este é o segundo ponto - também é preciso capacidade para ir buscar as pessoas que estão a morrer em terra”.

“Talvez não haja esta perceção, mas estima-se que está a morrer mais gente no trajeto que vem por exemplo da Somália, da Eritreia, do Sudão do Sul, para a Líbia, no deserto, onde as condições são terríveis, do que propriamente no Mediterrâneo.”


Isto significa, apontou o eurodeputado, que “há aqui um outro problema humanitário, que está a ocorrer em terra e que está completamente a soldo dessas redes de tráfico, por um lado, e noutros casos será até do [grupo extremista] Estado Islâmico, noutros ainda será de puras tribos que já existiam ali e que estão a dominar todo esse tráfico, e onde morre também muita gente”.

“Portanto, nós vamos ter de fazer alguma intervenção no terreno.”