O antigo Presidente da República e Primeiro-Ministro, Mário Soares, foi, este sábado, aplaudido de pé ao chegar à cerimónia de homenagem ao I Governo Constitucional, que chefiou há 40 anos, na sequência das primeiras legislativas em democracia.

Mário Soares saiu da residência oficial do primeiro-ministro para os jardins do Palácio de São Bento, em Lisboa, de braço dado com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Ao seu lado, estavam o chefe do Governo, António Costa, e o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues.

O fundador do PS e antigo primeiro-ministro e chefe de Estado, que está com 91 anos, não comparecia numa iniciativa pública há oito meses, desde 22 de novembro do ano passado, quando participou num almoço de solidariedade para com o antigo primeiro-ministro José Sócrates, na antiga Feira Industrial de Lisboa (FIL).

Esta cerimónia de homenagem a Mário Soares e ao I Governo Constitucional, que tomou posse a 23 de julho de 1976 e esteve em funções até 23 de janeiro de 1978, foi organizada pelo atual executivo e teve início pelas 18:30, perante cerca de 250 convidados.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, foi-se embora logo depois, tendo sido acompanhado até à saída pelo primeiro-ministro, António Costa.

Mário Soares assistiu à cerimónia sentado num cadeirão no lado esquerdo do alpendre do palácio. Em seu redor sentaram-se a filha, Isabel, o filho, João Soares, a nora, Annick Burhenne, o neto, Jonas, e o antigo deputado Carlos Luís.

No lado direito, sentaram-se António Costa, o antigo primeiro-ministro Francisco Pinto Balsemão e o jurista e gestor Rui Vilar, que foi ministro dos Transportes e Comunicações do I Governo Constitucional, os três oradores desta cerimónia.

A homenagem a um primeiro-ministro "livre como um passarinho"

O primeiro-ministro, António Costa, homenageou a longa vida de Mário Soares, da resistência à ditadura à integração de Portugal na União Europeia, e o seu curto primeiro Governo, que considerou um marco da institucionalização da democracia.

Com Mário Soares ao seu lado, o primeiro-ministro declarou: "O Governo foi curto, mas felizmente a sua vida é longa. Longa na resistência à ditadura, longa na forma como soube defender a revolução das ameaças à liberdade".

"Longa na capacidade que teve de assegurar o fim do colonialismo e a nossa integração na União Europeia, longa na capacidade que teve de consolidar a nossa democracia, longa na capacidade que teve de garantir a reconstrução económica do país", acrescentou.

António Costa salientou que "Mário Soares não nasceu nem acabou como primeiro-ministro do I Governo Constitucional".

"Começou muito antes e tem continuado, esperemos nós, para muito sempre. E a homenagem que aqui lhe fazemos é a homenagem disto tudo: do resistente, do defensor da democracia, do construtor da integração europeia, do reconstrutor do país", prosseguiu.

Num discurso de dez minutos, o primeiro-ministro recordou que quando o I Governo Constitucional caiu Mário Soares disse "que se sentia livre como um passarinho".

"E é por Mário Soares ter encerrado o seu I Governo Constitucional livre como um passarinho que o decidimos homenagear aqui precisamente neste jardim. Um jardim cheio de árvores", justificou, referindo que "ele é um grande amante das árvores".

Rui Vilar destacou a "tremenda responsabilidade de Soares no pós-25 de Abril

Rui Vilar, que foi ministro dos Transportes e Comunicações do I Governo Constitucional, destacou a "tarefa gigantesca" e a "tremenda responsabilidade" que essa equipa governativa encarou no período que se seguiu à revolução do 25 de abril, especialmente, o então primeiro-ministro, Mário Soares.

Segundo o responsável, os desafios que então se apresentavam exigiam "forças desmedidas - vontade, lucidez, determinação - e um apoio político que não era muito consentâneo nem provável num governo minoritário".

E realçou: "Mário Soares assumiu, com as suas reconhecidas coragem e destreza política, o desafio".

Rui Vilar assinalou que Mário Soares "era, sem dúvida, na altura, o político português mais prestigiado tanto em Portugal como no estrangeiro", devido ao seu passado de "resistência e de luta contra a ditadura", a par de "tudo o que fizera pela consolidação da liberdade conquistada no 25 de abril".

O jurista sublinhou também que "as ligações e o apoio de muitos líderes estrangeiros e internacionais, colocavam-no [Mário Soares] como o chefe de Governo indiscutível".

Pinto Balsemão e as recordações do "bom amigo"

O fundador do PSD, Francisco Pinto Balsemão, lembrou episódios e algumas divergências que teve com o seu "bom amigo" Mário Soares, mas disse que sempre estiveram de acordo em questões fundamentais, como o projeto europeu.

"Estivemos sempre de acordo em questões fundamentais. Estivemos sempre de acordo na defesa das liberdades, na luta pela democracia, pela construção de uma Europa na qual continuamos a acreditar e que queremos deixar aos nossos filhos e aos nossos netos", declarou o antigo primeiro-ministro, que chefiou os VII e VIII governos constitucionais, recebendo palmas.

Num discurso de cerca de quinze minutos, com Mário Soares ao seu lado, Balsemão falou da amizade que os dois mantêm há 50 anos e do relacionamento que tiveram enquanto responsáveis políticos após o 25 de Abril, referindo, por exemplo, que Sá Carneiro tentou um entendimento com o PS antes de avançar para uma aliança com o CDS.

"Tentámos colaborar durante os chamados governos de iniciativa presidencial. A primeira proposta de aliança feita pelo doutor Sá Carneiro a um partido daquilo a que se chamava - não sei se agora ainda se pode chamar - o arco da governação foi ao PS. Só que essa aliança não foi possível e avançou-se para outra solução, a chamada Aliança Democrática", disse.

Cavaco e Sampaio ausentes da homenagem

Dos outros antigos presidentes da República, só António Ramalho Eanes compareceu nesta cerimónia. Aníbal Cavaco Silva informou que não poderia estar presente e Jorge Sampaio faltou por motivos de saúde, segundo fonte do Governo.

Dos antigos primeiros-ministros, estiveram Balsemão e Pedro Passos Coelho. António Guterres, candidato a secretário-geral das Nações Unidas, encontra-se na Índia e Durão Barroso informou que não podia estar presente por razões familiares, adiantou a mesma fonte.

Entre os convidados, estavam membros dos antigos governos chefiados por Mário Soares, membros do atual Governo e deputados.

No final dos discursos, Mário Soares recebeu cumprimentos de António Costa, de Ramalho Eanes, de Passos Coelho, de Santana Lopes e do histórico socialista Manuel Alegre, entre outros, saudando cada um deles com um abraço caloroso.