Henrique Neto constatou esta quarta-feira que o que se está a passar em Portugal é, politicamente, um "impasse previsível", porque as sondagens já antecipavam - e acertaram - que não ia haver maioria absoluta. Na TVI e TVI24, o candidato presidencial criticou a atuação de Cavaco Silva e também os partidos políticos que, à esquerda, não prepararam os portugueses para laços que na campanha e antes pareciam impossíveis de concretizar. Ele, se fosse chefe de Estado, teria três soluções e a primeira passaria por dar prioridade a um bloco central, embora não lhe queira chamar assim. 

"O Presidente da República errou em primeiro lugar por não ter falado com os partidos antes de ter tomado qualquer decisão. Provavelmente seria uma mera formalidade. Mas eu tê-lo-ia feito. Em primeiro, convidava [PS e coligação] para se entenderem e dava-lhes prazo, chamaria atenção que o país não iria entender que não se entendessem e se necessário forneceria uma síntese estratégica para 10/15 anos. Não lhe chamaria [bloco central] mas é a primeira possibilidade que resultou das eleições, é essa é a natural."

Henrique Neto argumentou que seria uma forma de "pressionar e influenciar" uma saída que iria de encontro ao que as pessoas pensaram quando votaram, no caso de não haver maioria absoluta como veio a verificar-se.

A segunda solução seria dar posse a um governo PS, PCP e BE, caso aceitassem "um acordo escrito" comprometendo-se com as obrigações europeias. "Aceitaria um governo de esquerda, é constitucionalmente possível", embora Neto reconheça que existe um "conflito entre a legalidade e a legitimidade".

Para além do mais, os partidos da esquerda nunca prepararam o país para que pudesse vê-los a governar, com entendimentos. 

"Ao longo de 40 anos não houve maioria de esquerda, ninguém disse que estava disponível. O cidadão naturalmente não imaginou que após as eleições os três partidos pudessem mudar de posição"

Por último, e esgotadas as duas primeiras possibilidades, se fosse chefe de Estado Henrique Neto daria posse a um governo minoritário, "com a consciência" que poderia haver eleições ano a ano e meio depois. 

O candidato considera que o Presidente da República deve fazer mais do que apelos e Cavaco Silva remeteu-se a isso no seu mandato. "Tem tido posição muito institucional, muito afastada no seu envolvimento, não arrisca. Já há ano e meio quando tentou compromisso de salvação nacional limitou-se a dizer 'entendam-se'. Quem tem experiência da política portuguesa ao longo de 40 anos, não iam entender-se por milagre".

A esquerda, nomeadamente, "com a sua posição maximalista, do tudo ao nada, de se manter indiferente aos problemas" não ajudou nestes anos. Henrique Neto, recorde-se, foi militante do PCP, que abandonou em 1975, tendo sido mais tarde eleito deputado pelo PS. 

Agora, perante a situação atual, o candidato ainda acredita que o bom senso vai vigorar e que haverá lugar a um compromisso entre as forças políticas. "Isso não vai por apelos, vai com discussão de coisas concretas".


Marcelo não ganha à primeira volta

Entrevistado pelo jornalista Pedro Pinto, Henrique Neto disse ainda que não acredita na vitória de Marcelo Rebelo de Sousa na primeira volta das Presidenciais.

E não admitiu desistir. Está na corrida para ir até ao fim, com mais ou com menos apoios, com mais ou menos dinheiro para a campanha. "Eu candidatei-me e antes fiz um debate com amigos sobre quem estará em melhor posição, preparação, experiência... Encontrei muito pouca gente".

Daí considerar que é ele próprio que tem melhores condições: "Não vejo ao meu redor ninguém que esteja melhor preparado". Vê "pessoas estimáveis", mas assinalou que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.