O candidato a secretário-geral das Nações Unidas António Guterres defendeu hoje que a comunidade internacional está a falhar na prevenção e resolução de conflitos e na proteção global contra o terrorismo, durante a sua audição na sede da organização.

“Se há algo em que a comunidade internacional está a falhar é na prevenção e resolução de conflitos e na proteção da segurança global contra o terrorismo. É por isso que eu acredito que precisamos de um impulso na diplomacia para a paz”, afirmou o antigo primeiro-ministro português, no início da sua audição pública na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque.

Numa intervenção de cerca de dez minutos, em que falou de improviso e em inglês, francês e espanhol, Guterres defendeu que “a liderança dos Estados-membros é essencial” e deu o exemplo recente da “iniciativa liderada pelos Estados Unidos e pela Federação Rússia” para alcançar um cessar-fogo na Síria.

Definir roteiro para a paridade nos cargos de topo da ONU

O candidato a secretário-geral das Nações Unidas António Guterres comprometeu-se hoje, caso seja eleito, a estabelecer um roteiro, nos primeiros meses do seu mandato, para garantir a paridade no pessoal da organização, com prioridade para os cargos de topo.

“Se eleito, nos primeiros meses do meu mandato, e depois das consultas necessárias, apresentarei um roteiro para a paridade em todos os níveis com referências e prazos claros, dando prioridade à seleção de cargos mais elevados”, anunciou o antigo primeiro-ministro.

“As Nações Unidas têm de liderar o esforço da comunidade internacional para a igualdade de género, o que - vamos ser honestos - não foi sempre exatamente o caso”, declarou Guterres, defendendo que “a partir de agora, o secretário-geral deve respeitar a paridade” nas escolhas do Conselho Executivo da ONU e nos quadros mais elevados.

Para o candidato português, “é necessária uma mudança na seleção de representantes e enviados especiais", área onde considerou ter ocorrido um retrocesso "nos tempos mais recentes”.

Perante os 195 membros da organização, António Guterres subscreveu “o mesmo compromisso para garantir um equilíbrio regional” na seleção de responsáveis.

Globalização favorece circulação de capital mas não de pessoas

O candidato a secretário-geral das Nações Unidas António Guterres afirmou também que o “movimento de globalização é assimétrico” porque favorece a circulação de capital e não de pessoas.

O “dinheiro move-se livremente” mas “as pessoas não”, afirmou o antigo primeiro-ministro na sede da Organização das Nações Unidas, em que defendeu uma política mundial integrada que minimize o impacto das migrações.

O candidato disse que o objetivo deve ser combater os “traficantes” e os que se servem dos migrantes e refugiados, de modo a que a emigração seja “uma opção e não um ato de desespero”.

No que respeita aos refugiados, António Guterres defendeu a responsabilização e a partilha de responsabilidades de todos os estados.

“Precisamos de resolver o problema” com uma “resposta integrada”, afirmou o candidato, mas prometendo que é possível atingir esse objetivo sem custos muito mais elevados.

“Tornar a ONU mais efetiva é algo que é atingível”, disse, recordando a poupança nos custos de organização que imprimiu no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) ao longo dos últimos dez anos.

Na fase de respostas às perguntas dos representantes dos países membros da ONU, Guterres disse que "independência é uma atitude" lembrando o seu percurso como alto-comissário para os Refugiados.

"Não posso dizer que vou evitar a pressão, mas posso garantir que vou resistir-lhe. Foi isso que fiz durante o meu tempo no Alto Comissariado para os Refugiados, pode perguntar a qualquer um dos estados-membros aqui presente", disse.

Sobre uma questão referente ao conflito entre a Palestina e Israel, colocada pelo embaixador do Líbano, Guterres disse que tudo faria "para garantir que as resoluções aprovadas, que suportam claramente a solução de dois estados, sejam implementadas."

João Vale de Almeida, o embaixador da UE junto da ONU, desejou boa sorte a Guterres em português e fez uma pergunta sobre a gestão da organização, que considerou crítica.

"No meu tempo no alto comissariado (para os Refugiados), baixei as despesas administrativas de 14% para 6,5%. Quanto às despesas com pessoal, baixámos de 41% para 22%. Por isso este equilíbrio de que falo é possível", disse.

O candidato defendeu que a ONU deve ter um “mecanismo de avaliação transparente” para avaliar “a capacidade de resposta” da organização, nomeadamente em matérias de manutenção de paz.

Casos de “violência sexual” por parte de militares da ONU junto das populações são casos “inaceitáveis”, exemplificou o antigo primeiro-ministro português.

Embora elogie a importância da diplomacia no diálogo internacional, Guterres disse querer garantir o “reforço da capacidade dos estados” na gestão dos problemas.

Por isso, defendeu a “necessidade de clarificar o impacto nos direitos humanos de cada uma das organizações das Nações Unidas”.

“Estamos a enfrentar guerras que todos estamos a perder”, afirmou, defendendo que é tempo de os países assumirem um “forte compromisso” para resolver os problemas pela via diplomática.

Guterres prometeu ainda que, caso seja eleito, irá sensibilizar a comunidade internacional para a necessidade de desenvolver “programas de ocupação da juventude” nos países com missões das Nações Unidas.

É uma “medida absolutamente essencial”, disse.