O Parlamento abre as portas a partir de sexta-feira para receber memórias da I Guerra Mundial, desde cartas de amor a uma descalçadeira usada nas trincheiras, que serão digitalizadas para estarem disponíveis numa biblioteca online.

«Os Dias da Memória» são uma iniciativa inédita em Portugal, apresentada em conferência de imprensa na Biblioteca Nacional, que se junta assim aos «Collection days», momentos de partilha de memórias da I Guerra pelos cidadãos de diversos países da Europa.

«A I Guerra tem episódios fundamentais, nós mandámos para a frente 100 mil homens, a perpetuação das suas histórias está ainda muito presente nas histórias daqueles que nos são familiares e agora convém que retirem das gavetas essas memórias, convém que no-las contem, convém que tenham a noção que são importantes», desafiou Maria Fernanda Rollo, do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que lidera o projeto em Portugal.

Quem se deslocar à Assembleia da República entre sexta-feira, altura em que a presidente, Assunção Esteves, abrirá as portas, e domingo, terá uma equipa de especialistas e de mais de 90 voluntários do Liceu Camões, à sua espera para os acolher, catalogar e digitalizar os seus objetos.

Os objetos, que serão devolvidos, e as suas histórias, passarão a estar acessíveis em duas bibliotecas online, a europeana1914-1918.eu e uma outra criada só para Portugal, consumando o momento em que «as histórias pessoais e a história dos estados se juntam», conforme expôs Jill Carsons, do projeto Europeana, que já reuniu mais de 150 mil objetos de diversos países da Europa.

Esses objetos podem ser coisas tão significativas como os postais e cartas de amor que um tetravô escreveu da frente mas também outros aparentemente menos significativos como uma descalçadeira.

«Imaginem o que era descalçar uma bota na lama das trincheiras», questionou-se João Jaime Pires, do Liceu Camões, acenando com um desses utensílios que aquela escola já recolheu e vai entregar nos «Dias da Memória».

Já existem cerca de 600 items portugueses no sítio da internet do projeto europeana 1914-1918, nomeadamente uma coleção de pósteres portugueses a apelar ao esforço de guerra que pertence ao espólio da Biblioteca Nacional de Portugal, que se associa também ao projeto.

Agora é a hora das pessoas, sublinhou Maria Fernanda Rollo: «É mesmo para irem lá à Assembleia da República».

A historiadora sublinhou que o período da I Guerra em Portugal «foi muito mais importante, muito mais intenso e muito mais significante do que aquilo que a maior parte das pessoas se lembra».