Era um tema incontornável. Com a Europa em chamas e um deadline à porta, a crise de um país europeu, berço da democracia, foi invocada por todos os partidos no debate do Estado da Nação de Portugal. Para mostrar o melhor país de hoje, segundo a maioria PSD/CDS-PP, recuou-se a 2011, ao pedido de resgate, para ironizar: "Não vos faz lembrar hoje o que se está a passar noutro sítio qualquer?".

Pergunta retórica de Nuno Magalhães, deputado do CDS-PP, remetendo implicitamente para a Grécia. E o discurso de alerta, logo depois: 

"É bom que os portugueses meditem sobre isso. Com um governo PS, corremos o risco de ter em 2017 ou 2018 de ter resgate muito mais duro. Não será o segundo ou o terceiro, será o quarto"


Foram precisamente os socialistas os primeiros a invocar a situação na Grécia. O líder parlamentar Ferro Rodrigues acusou o governo de Pedro Passos Coelho de ser um "obstáculo" a um entendimento entre Atenas e os credores. O primeiro-ministro contestou, carregando nos adjetivos depreciativos:

"As insistências desesperadas [por parte do PS] em querer levar PSD e CDS-PP e o próprio governo a impedirem um acordo entre as instituições e a Grécia é simplesmente risível, risível senhor deputado"


O chefe de Governo deixou por isso o repto a Ferro Rodrigues: "Gostaria de ver o senhor deputado comentar intervenções de ministros das finanças socialistas e primeiros-ministros e depois talvez possamos ter uma conversa mais bem regrada".

Da parte do PSD, Luís Montenegro usou porventura a imagem grega mais marcante da última semana - as gigantes filas das pessoas a levantar dinheiro (60 euros máximos por dia), num país sujeito ao controlo de capitais, com bancos fechados.

"Os partidos da oposição falharam e falharam redondamente todas as suas profecias para Portugal. Acaso não tivessem falhado teríamos hoje pessoas em filas multibanco para conseguirem levantar o seu dinheiro"


Passos Coelho disse depois que "sabemos custos elevados que pagámos" com um resgate, "sobretudo stock da dívida que vem do passado e elevado stock de desemprego que ainda temos na nossa sociedade".

A Grécia pediu hoje o terceiro, lembrou também, dizendo que é "muito diferente" ter soberania para decidir do que "ter de andar de mão estendida" a aceitar o que dizem os credores. "E isso os portugueses perceberam independentemente das proximidades partidárias", valorizou. 


Chantagem e "deputados excitados"


O primeiro-ministro realçou que "o falhanço do Governo seria o falhanço do país". "Infelizmente não tivemos apoio da oposição socialistas e restantes oposições. O que se dizia era atirar a toalha ao chão e que era preferível passar pior. Hoje sabemos o que isso custa, mas não em Portugal". Alusões à Grécia, outra vez. 

E a repetição de que "ninguém fez chantagem" com os gregos: "O que a Europa fez em relação à Grécia não fez por país nenhum. Aquilo que emprestou à Grécia não fez por mais ninguém".

Passos Coelho respondia a Jerónimo de Sousa e essas afirmações receberam muitos protestos da bancada do PCP

Para responder aos "excitados deputados", o primeiro-ministro lembrou que "eram dívidas dos gregos, não eram dívidas dos outros europeus" que estavam - estão - em causa. 

"Pavor"

A situação na Grécia causa "pavor" ao vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, que encerrou o debate dedicando alguns minutos ao tema, por comparação com a situação em Portugal.

"É simplesmente um pavor imaginar que em Portugal pudesse acontecer o que está a acontecer com os gregos. A demagogia que sujeita as nações ao curralito ou ao mero confisco" 

O governante defendeu que uma zona monetária única não é gerível sem regras partilhadas. "Tão pouco é viável ficar dentro [do euro], ir no sentido contrário aos outros e no caminho pedir aos outros o dinheiro para ir contra todos", atirou.


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