Em junho de 2011, pouco depois de tomar formalmente posse, no Palácio da Ajuda, Passos Coelho antevia uma fase complicada: "Vivemos tempos difíceis e mais tormentas nos aguardam", declarava.

O primeiro-ministro dizia querer "afugentar o medo paralisante" mas também não esconder "a dimensão e a urgência dos desafios" colocados. Prometeu reduzir o endividamento do país e acabar com o que apelidou de "embriaguez da dívida" portuguesa, que quatro anos depois continuou a aumentar (estava em 128,7% do PIB no segundo trimestre de 2015), sendo mesmo a terceira mais alta da União Europeia. 

Em 2011, Passos Coelho apregoava que Portugal "jamais" poderia "regressar à ilusão de que a dívida em espiral alimenta crescimento".

"O país sabe por experiência própria que a embriaguez da dívida se limita a encenar um falso e curto bem-estar até ao dia em que chega a fatura e o colapso".

No final dessa intervenção de posse do XIX Governo, assegurou: "Portugal não pode falhar e eu sei que Portugal não falhará". O país conseguiu, de facto, sair do programa de ajuda externa sem recorrer a um programa intercalar ou sujeitar-se a novo resgate.

Há quatro anos, o Presidente da República, por sua vez,  tinha advertido no seu discurso que "não há motivos para deixar de fazer o que deve ser feito, a começar pelo cumprimento dos compromissos que assumimos perante as instituições internacionais".

"Os custos de um falhanço seriam absolutamente catastróficos e durariam por muitos e muitos anos, hipotecando drasticamente o futuro das gerações mais jovens", declarava o chefe de Estado. O Executivo não conseguiu travar a fuga de jovens do país e Portugal voltou a ser, de novo, um país de emigração como aquela que se viveu nos anos 60/70, admitiu ainda esta semana o Governo. 

 

As maiorias e os consensos

Há quatro anos, Cavaco Silva notava que para enfrentar a situação do país o novo Governo dispunha "da força de um resultado eleitoral inequívoco, de uma maioria no Parlamento e da cooperação do Presidente da República", mas alertava que Portugal não estava em condições de viver "crises políticas sucessivas". Ironicamente, o país está hoje a viver uma. 

Na altura, sublinhou que competia ao novo executivo assegurar que a coligação governativa tivesse "solidez, consistência e durabilidade". O Executivo durou efetivamente toda a legislatura, apesar do episódio da "demissão irrevogável" de Paulo Portas que acabou por não o ser. 

Também em 2011, e apesar da maioria o Parlamento à direita, o Presidente considerava que a "gravidade da situação" e a "dimensão dos sacrifícios" impunha a procura de "compromissos alargados a outras forças políticas", numa altura em que, antevia, seriam pedidos "possivelmente os maiores sacrifícios desde que foi instaurada a democracia". O Governo acabou por protagonizar um "enorme aumento de impostos", como foi classificado pelo então ministro das Finanças Vítor Gaspar. 

Embora pedisse esse entendimento interpartidário, atualmente Cavaco Silva considera a alternativa de esquerda que está a ser negociada "claramente inconsistente", tendo posto de parte PCP e BE como forças credíveis por não defenderem os compromissos internacionais (euro, UE, NATO). Quando indigitou Passos Coelho como primeiro-ministro, na semana passada, também expressou o seu desagrado por PSD e PS não se terem entendido: "É incompreensível". 

Voltou a usar o termo "catastrófico" como em 2011, mas desta vez não para falar do incumprimento financeiro e sim para se referir ao perigo que seria uma política que tivesse como objetivo a saída de Portugal do euro e da UE. 

As dificuldades do país, no entanto, costumam dominar os discursos de tomada de posse dos executivos. No  governo minoritário de 2009, no seu primeiro discurso como primeiro-ministro socialista José Sócrates elegeu precisamente o combate à crise como a "primeira prioridade" e a recuperação da economia como o seu "objetivo central".

Tinha acabado de perder a maioria absoluta conquistada quatro anos antes, tal como aconteceu nestas eleições com Passos Coelho. Mas nunca a crispação política subiu tanto de tom como nos tempos que correm, com uma clara divisão entre esquerda e direita. E com o expectável derrube do Governo que agora toma posse daqui a uma semana e pouco. Quatro anos volvidos, Portugal, o país banhado pelo Atlântico, continua como um barco à deriva, mas desta vez o anzol apanhou mais a Política do que as Finanças.