Governo PSD é "incidente de percurso" e acordos de esquerda "geringonça". 

O deputado socialista, Pedro Bacelar de Vasconcelos, defendeu, esta quarta-feira, os preceitos constitucionais da solução de governo alternativa protagonizada em conjunto com BE, PCP e PEV, classificando governos em gestão como "incidentes de percurso" do regime democrático. 

"Os governos de gestão são incidentes de percurso no funcionamento das democracias. Não são uma solução, são um constrangimento transitório que sempre se deseja tão breve quanto possível. São apenas uma circunstância excecional cuja persistência se torna especialmente penosa e imprópria", afirmou o constitucionalista do PS, em declaração política, de acordo com a Lusa.

Os parlamentares social-democrata e democrata-cristão, Carlos Abreu Amorim e Telmo Correia, respetivamente, voltaram a recorrer aos termos "geringonça", "manigância" e "coisa" para descrever os acordos de incidência parlamentar obtidos à esquerda, denunciando aquilo que consideram ser a ilegitimidade do líder socialista, António Costa, para ser primeiro-ministro.

Bacelar de Vasconcelos contrariou a tese, sublinhando que os entendimentos verificados entre PSD e CDS-PP, em 2011 e em 2015, antes (de coligação) e depois (de Governo) das eleições de 04 de outubro, não foram "alguma vez objeto de uma tão ampla exposição e escrutínio públicos" como os "agora alcançados pela esquerda", acrescentando que a sugestão de Passos Coelho de revisão constitucional foi "absurda" e "surreal", relata a Lusa.

"É tempo de reconhecerem a sua derrota e se resignarem ao papel honroso que a democracia sempre reserva às minorias", aconselhou o deputado socialista às bancadas de PSD e CDS-PP em vez de protagonizaram uma "luta desesperada pela sobrevivência" no poder.

Abreu Amorim afirmou que "ganha as eleições quem tem mais votos" e lembrou ter existido uma coligação que se apresentou e ganhou, enquanto outros projetos políticos também se apresentaram e perderam".

"Fiquei com ideia de que o PS parece querer ultrapassar a perpétua e constante vontade do PCP de vencer todas as eleições desde o 25 de Abril de 1974", ironizou o deputado social-democrata, vincando que António Costa concorrera às primárias do PS para ser candidato a primeiro-ministro, sendo agora o "único militante socialista" sem "o direito a ser indigitado", devido à derrota nas urnas.

O centrista Telmo Correia citou Marx e a sua máxima de que a história se repete, com a tragédia a dar lugar à comédia, para caricaturar aquilo que considerou ser uma "proclamação de vitória" socialista em sentido contrário aos resultados das legislativas.

"Esqueceram-se foi de avisar os eleitores desse pequeno facto antes das eleições", salientou, referindo-se aos acordos assinados "à porta fechada e aos quais alguém tirou uma ‘selfie' (foto)", antes de pedir respeito pelo tempo do Presidente da República e condenar os termos utilizados recentemente por elementos do BE e do PS ("chefe de seita" ou "gangster") para tratar o Chefe de Estado.

O parlamentar bloquista Jorge Costa notou que "a direita já guardou no saco das más ideias o discurso da última semana", no sentido das "novas eleições, revisão constitucional e suspensão da democracia a partir de Belém através da manutenção de um governo em gestão", e o comunista António Filipe resumiu depois tudo a uma pergunta: 

"Há um grande mistério no ar... Se a direita ganhou as eleições, então para que quer outras?"


António Filipe, bem humorado, acrescentou que Cavaco Silva, cuja única garantia de estabilidade para empossar Passos Coelho era a garantia de rejeição do seu programa no Parlamento, não tem legitimidade para protelar a solução alternativa.

O partido ecologista Os Verdes reiterou que há condições para ser formado um governo da iniciativa do PS, e "o desespero é muito" em PSD e CDS-PP para "não largarem o poder".

"PSD e CDS não têm qualquer suporte parlamentar para além dos 107 deputados que detêm juntos, o que é insuficiente para suportar um governo", lembrou a deputada ecologista Heloísa Apolónia numa declaração política em plenário da Assembleia da República.

BE diz que “já nem os mercados” ajudam direita


Durante a tarde desta quarta-feira no Parlamento, o Bloco de Esquerda  lembrou que PSD e CDS-PP foram incapazes de ter uma maioria política de governo e nesta fase "já nem os mercados" ajudam a direita na "chantagem do medo", argumento que deixou o PSD "perplexo".

"Hoje mesmo Portugal fez uma emissão de dívida com juros baixíssimos", vincou o deputado José Manuel Pureza numa declaração política no parlamento.

Os mesmos mercados que a direita "sempre invocou para legitimar todos os ataques aos direitos do trabalho e todas as políticas de empobrecimento" desmentem "que o fim democrático da governação da direita seja o fim dos tempos" que PSD e CDS-PP vaticinam, prosseguiu o parlamentar bloquista.

À direita, o deputado do PSD António Leitão Amaro disse ter ficado "perplexo" por "ouvir o BE a legitimar a sua ação na vontade e na palavra dos mercados".

E concretizou: "De facto as coisas mudam. E o BE parece ter mudado muito quando cita como fonte de autoridade para um certo caminho a palavra dos mercados", declarou o parlamentar, pedindo a Pureza para não assumir um futuro "que ainda não aconteceu".