Nos últimos anos Diogo Freitas do Amaral nunca teve dúvidas que Marcelo Rebelo de Sousa tentaria chegar, eventualmente, a um de dois cargos: primeiro-ministro ou Presidente da República. Porque não se pode travar um “animal político”, mesmo que o PSD, liderado por Passos Coelho, tenha tentado.

Palavras deixadas pelo próprio ex-ministro, e ex-candidato à Presidência da República, em entrevista no “Jornal das 8” e “21ª Hora” da TVI e TVI24, esta segunda-feira, sobre a possibilidade de Marcelo Rebelo de Sousa poder vir a ganhar as eleições de 24 de janeiro. Com o seu voto pode contar o antigo comentador da TVI, garantiu Freitas do Amaral, em primeiro lugar pela amizade e depois porque nenhum outro candidato tem os seus “conhecimentos”.

“Vou votar no professor Marcelo Rebelo de Sousa. [Porque], primeiro, somos amigos há 50 anos, segundo, somos colegas de faculdade há 30 e tal, 40, e, terceiro, reconheço que é um dos políticos mais inteligentes, mais competentes e mais capazes de exercer a função presidencial como ela deve ser exercida. (…) Olhando para os seus adversários, sobretudo para os mais fortes, não encontro ninguém que tenha o mesmo nível de conhecimentos jurídico-políticos, constitucionais, administrativos, financeiros e internacionais. Não encontro ninguém com uma experiência política tão forte do que foi a vida portuguesa desde 1974.”


Sobre os outros candidatos, Freitas do Amaral considerou que apenas Maria de Belém ou Sampaio da Nóvoa têm hipóteses de conseguir passar a uma segunda volta, a primeira com maior probabilidade. Porém, nenhum destes candidatos é um “Mário Soares”, justamente quem Freitas do Amaral enfrentou na sua candidatura presidencial, pelo que Marcelo Rebelo de Sousa não deverá ter dificuldades em suceder a Cavaco Silva logo na primeira volta.

Maria de Belém não tem a capacidade de “liderança” de Marcelo Rebelo de Sousa, e ninguém “conhece” Sampaio da Nóvoa.

“Comparando o currículo de Maria de Belém com o de Marcelo Rebelo de Sousa, a comparação é difícil, porque ela nunca exerceu funções de liderança política. Nunca liderou o partido, nunca foi líder parlamentar, [foi presidente do PS, mas o cargo é simbólico], não liderou nenhum Governo, não foi presidente de Câmara, nunca teve uma função de liderança. [E] a Presidência da República exige uma vocação de liderança. (…) Sampaio da Nóvoa é um desconhecido, ninguém o conhece no país. (…) O problema com a sua candidatura é que nunca vi em qualquer país democrático no mundo que uma pessoa chegue perto dos 60 anos sem nunca ter feito política e [depois] entre para ser candidato à Presidência da República.”

“Eu tinha na minha frente o dr. Mário Soares, que foi o maior político que Portugal conheceu nos últimos 41 anos. O dr. Marcelo Rebelo de Sousa não vai ter nenhum Mário Soares à sua frente. Portanto, a tarefa dele está mais facilitada por aí, mas também por outra coisa: (…) [Eu] não tinha dez anos de um programa semanal na televisão.”


Freitas do Amaral teceu, ainda, criticas ao PSD por ter tentado “travar” a candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, tendo apenas manifestado apoio ao candidato depois de anunciada a sua corrida a Belém.

“Ele não era o [candidato] desejado pela direção política do PSD, que cometeu um erro enorme, que foi pensar que através de uma moção de estratégia parava um animal político. Um animal político não é suscetível de ser travado [desta forma]. Ele fez de conta que se retirava, deixou passar algum tempo, depois começou a percorrer o país e a recolher o apoio das bases do PSD sem pôr isso nos jornais (…) e conseguiu o objetivo: ser o candidato natural do PSD contra o qual a direção do partido já não podia fazer nada, mesmo que quisesse.”

Sobre a recente crise política e sobre a durabilidade do novo Governo liderado por António Costa, o ex-ministro não tem certezas sobre se o Executivo aguentará uma legislatura, ainda que acredite que neste momento nem PS, nem PSD, ou CDS, querem eleições antecipadas.

 “Acredito [na sustentabilidade deste Governo], embora não faça juras, nem adivinhas, quanto aos meses, ou anos, que este Governo vai durar. É impossível. Uma legislatura é o objetivo dos quatro partidos que se coligaram, mas ninguém pode ter essa certeza. Também todos pensávamos, em 1976, que o Governo de Mário Soares ia durar quatro anos e durou um ano e meio. Uma coisa é o estado de espírito com que se começa, outra são as circunstâncias.”

No final da entrevista, Freitas do Amaral foi ainda questionado sobre a quem deveria, na sua opinião, suceder a Paulo Portas na liderança do CDS. Depois de vários elogios ao ex-vice-primeiro-ministro – porque não deve ter sido fácil aguentar os “maus-tratos de Passos Coelho" - Freitas do Amaral disse que o partido ficará bem entregue se acabar por cair nas mãos da ex-ministra da Agricultura, Assunção Cristas.

“Suponho que o dr. Paulo Portas tenha tomado esta decisão porque já estava há muitos anos [na liderança do CDS]. E aguentar os maus-tratos que o dr. Passos Coelho lhe infligiu durante quatro anos e meio deve ter sido o período mais difícil da [sua] vida política. Humilhações públicas, [como] só saber qual era a proposta de Orçamento no mesmo momento em que os outros ministros sabiam, houve variadíssimas humilhações em público. (…) O dr. Paulo Portas foi um excelente líder do CDS, e pegando na velha frase de que as árvores se avaliam pelos seus frutos, quem é que conseguiu levar o CDS ao Governo? Foi o fundador do partido, levou o CDS a quatro Governos, e o dr. Paulo Portas que o levou a três.”


“Conheço muito bem Assunção Cristas, acho que foi uma excelente ministra da Agricultura. Não conheço Nuno Melo. (…) Não sei fazer nenhuma previsão. A única coisa que posso dizer é que se a dra. Assunção Cristas for a próxima presidente do CDS, o [partido] terá uma excelente presidente.”