O fundador do Bloco de Esquerda e conselheiro de Estado Francisco Louçã defendeu esta quarta-feira, na cidade da Praia, que a Revolução Russa de 2017 foi uma "promessa de libertação" que acabou por ser também uma "enorme tragédia".

A Revolução Russa resulta do simultâneo colapso do czarismo, uma autocracia, uma ditadura, e do efeito da I Guerra Mundial, com milhões de camponeses russos a morrerem. A rejeição desse duplo fator guerra/ditadura levou a uma grande esperança revolucionária e à vitória do que viria a ser mais tarde a República Soviética", disse Francisco Louçã.

O comentador falava na cidade da Praia, onde participou, juntamente com a jornalista e escritora Clara Ferreira Alves, numa conferência promovida pela Presidência da República de Cabo Verde para assinalar os 100 anos da Revolução Russa de 7 de novembro [outubro no calendário russo] e a sua influencia nos movimentos de libertação africanos.

Louçã assinalou os "enormes efeitos" na democratização da Europa Central, com a realização do primeiro sufrágio universal em que homens e mulheres puderam votar, bem como as contradições que se lhe seguiram.

Francisco Louçã defendeu, contudo, que, apesar da marca de tragédia, é preciso aprender com um processo onde "o mais importante" para o futuro "foi a promessa e a esperança de democracia".

O ex-bloquista considerou que o efeito da revolução nos países africanos "não foi muito direto e imediato", mas que a sua influência é percetível nos movimentos de libertação em Angola ou no pensamento do líder da independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde, Amílcar Cabral.

O Partido Comunista sul-africano terá sido talvez o primeiro que resultou do impulso organizador da Internacional Comunista, fundada pelo Partido Comunista da União Soviética. Nas décadas seguintes, a luta pela independência e as gerações que foram formando a luta da libertação nacional foram muito influenciadas pelas esperanças da Revolução de Outubro e mais tarde pelas revoluções cubana e chinesa. Nos movimentos de libertação em Angola ou no pensamento de Amílcar Cabral, no caso da Guiné-Bissau e Cabo Verde, isso foi muito importante, mas é uma influência posterior e não muito imediata", disse.

Ainda assim, Louçã não tem dúvidas de que a "ideia de que o capitalismo, o imperialismo e as guerras não seriam uma forma de organização do mundo foi destruída pela promessa de libertação que a Revolução representou".

Questionado pelos jornalistas, Francisco Louçã considerou "natural" a falta de entusiasmo da Rússia em assinalar a Revolução e mostrou-se convicto de que os revolucionários não se reveriam na política de Putin.

Acho natural que os oligarcas russos e o Governo de Putin não queiram comemorar a Revolução de outubro, porque em alguma medida promete a liberdade dos povos e a democracia contra o autoritarismo. E Putin tem muito receio dessa promessa", declarou.

O Presidente da República de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, sublinhou, aos jornalistas, a importância de assinalar "um acontecimento político muito relevante".

É um acontecimento marcante para a vida da humanidade, independentemente da avaliação que se possa fazer hoje dos seus impactos, de se considerar que foi um desastre, uma fraude ou o maior acontecimento político do século XX. A verdade é que foi muito relevante, do ponto de visto político, social, humano", disse.

A ideia, segundo Jorge Carlos Fonseca, é "pensar sobre a influência, o condicionamento e os impactos dessa revolução em África, nos processos independentistas e em Cabo Verde".

A conferência "Revolução Russa, 100 Anos depois: sonhos, utopias, que legado? Qual a influência nos movimentos de libertação e nos líderes políticos de África? ", contou ainda com a participação dos analistas cabo-verdianos Aquilino Varela e Casimiro de Pina e teve moderação do jornalista e escritor José Vicente Lopes.

No mesmo âmbito, a jornalista Clara Ferreira Alves profere quinta-feira uma palestra sobre "O papel dos escritores e dos jornalistas na 'descodificação' dos grandes acontecimentos internacionais".