O deputado comunista Francisco Lopes afirmou esta quinta-feira que o Presidente da República e os membros do Governo da maioria PSD/CDS-PP sabem que não vai existir um período pós-troika, apesar de tanto falarem do final do programa de assistência.

«Cavaco Silva diz que Portugal está sujeito, até 2035, à ingerência externa pelo menos mais 20 anos. No fundo, quem tanto fala de pós-troika, vem dizer o que todos sabíamos - com esta política, com este Governo ou outro idêntico, não há pós-troika», disse, na abertura da interpelação do PCP ao executivo, representado pelo Ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, o democrata-cristão Mota Soares, e o responsável pela pasta da Presidência do Conselho de Ministros e Assuntos Parlamentares, Marques Guedes, além de três secretários de Estado.

Segundo o parlamentar comunista, «à irlandesa, com ou sem programa cautelar, com o garrote do Tratado Orçamental e outros instrumentos de domínio da União Europeia e do euro, a política das troikas, de exploração e empobrecimento, é para continuar, na opinião deles».

«Não há demagogia e encenação do Governo de Passos Coelho e Paulo Portas que possa esconder a realidade. Quanto mais tempo durar este Governo e esta política, pior para o país», reforçou.

Francisco Lopes classificou como «histórica» a manifestação das forças e serviços de segurança de quinta-feira, junto à Assembleia da República, citando palavras de ordem dos milhares de pessoas que protestaram.

«Onde estão os cifrões das nossas profissões, questionavam os profissionais das forças de segurança na semana passada. Os roubos dos seus salários, bem como dos restantes trabalhadores, nas pensões, no financiamento dos serviços públicos, estão a ir direitinhos para os milhares de milhões de euros de lucros e dividendos do grande capital», disse.

O deputado do PCP condenou o «saque de sete mil milhões de euros anualmente em juros de uma dívida em grande parte ilegítima» para os swap (contratos de gestão de risco no setor público), Parcerias Público-Privadas e para os escândalos do BPN, BPP ou BCP».

A parlamentar social-democrata Mercês Borges contrariou o «discurso tremendista, pessimista, do quanto pior melhor».

«Ignorou o esforço e a resiliência do povo português. Lutaram as empresas e os trabalhadores. O desemprego é elevado, mas caiu de forma relevante e foram sendo criados novos postos de trabalho», afirmou.

«Falar de feijoada a quem passa fome»

O líder da bancada comunista acusou o Governo de «falar de feijoada a quem passa fome», ao traçar um cenário de recuperação económica enquanto os portugueses sentem os efeitos da crise.

«Falam de crescimento da produção industrial e de exportações, de garantias-jovens, de acesso a jovens, de acesso à educação e formação, como quem fala de feijoada a quem passa fome», criticou João Oliveira, no final da interpelação ao executivo da maioria PSD/CDS-PP.

Para o parlamentar do PCP, «comprovou-se que a realidade é bem diferente daquilo que propagandeia o Governo» e «Portugal está hoje pior do que quando foi assinado o pacto pelas troikas».

«Governo e maioria querem convencer-nos de que o país está melhor do que em 2011. E que todos devemos estar gratos pelo que fizeram nos últimos três anos, de que valeu a pena toda a destruição económica e social, todos os dramas individuais e coletivos», lastimou.

O deputado comunista acusou ainda o executivo liderado por Passos Coelho de «roubar salários, pensões e direitos, dizendo que tudo era temporário e hoje é evidente que se prepara para manter o roubo perpetuamente».

«A perspetiva que Passos Coelho, este Governo e a maioria têm para dar ao país é a mesma do Presidente da República e dos representantes da troika, a da perpetuação dos sacrifícios e dos roubos impostos nos últimos três anos», disse, defendendo a demissão dos governantes e eleições antecipadas.