O líder parlamentar do PS criticou o primeiro-ministro por ter iniciado o debate quinzenal com um «registo de negação, irrealismo e alguma fabulação».

«O país que apresenta não é o país que os portugueses conhecem. A fábula de que quem não se lixou foi o mexilhão seria cómica, se não fosse trágica para milhares de pessoas», afirmou Ferro Rodrigues, enumerando os resultados da política do Governo que mostram que «quem se lixou foi o mexilhão», ao contrário do que Passos Coelho garantiu.

Ferro Rodrigues lembrou que, quando o ex-ministro das Finanças, Vítor Gaspar, se demitiu, «assumiu a derrota e o falecimento da estratégia neoliberal». «Mas agora, o Governo está a passar para uma estratégia neopopulista. Estão em trânsito de uma para a outra», lamentou.

O primeiro-ministro assinalou que «o Governo não arrancou com o neoliberalismo», mas sim «com o memorando que o PS assinou». «Até a privatização da TAP estava no memorando. Veja lá onde é que ia o neoliberalismo», apontou.

Emprego «à custa de estágios»

O líder parlamentar socialista não gostou de ver o primeiro-ministro a citar o último boletim do Banco de Portugal para sustentar que a criação de emprego está a crescer, porque considera que foi mesmo o BdP a dar «uma machadada no milagre do Governo do emprego», mostrando que a criação de emprego está a ser feita «à custa de estágios», que é «a forma mais dura de precariedade». «É apenas uma questão estatística», constatou.

Na resposta, Passos Coelho acusou Ferro Rodrigues de se «afastar da realidade». «Não é verdade que a nossa economia esteja em estagnação», constatou, acusando o PS de «negar as evidências» de qualquer organismo, como o BdP e o INE, que esteja a contabilizar o que se passa em Portugal ou a fazer projeções sobre o futuro».

«Foi o PS que, há um ano, que disse que Portugal caminharia inevitavelmente para o segundo resgate e que o orçamento para este ano era inexequível», disse, acusando: «Abona mais as projecões que fizemos e que foram cumpridas do que as feitas pelo PS que falharam».


Sobre a criação de emprego, Passos Coelho defendeu que «o Estado não pode ser criticado por ter políticas ativas de emprego», garantindo que os estágios estão a ter uma taxa de empregabilidade de 70%.

«Não sei quem tem mais irrealismo nesta matéria. Não é o Estado que tem gerado emprego, é o setor privado», acusou.

Já o secretário-geral do PCP lembrou que os comunistas pediram os registos dessa taxa de transformação dos estágios em emprego «há mais de um mês». «Não tivemos nenhuma resposta, mas isso não o impede de vir fazer aqui propaganda», acusou.
 
Passos Coelho assegurou que estes números são «disponibilizados pelo IEFP». «Tenho muito gosto em fazer chegar-lhe esses números. Não tenho nenhum prazer em fazer propaganda», garantiu.

O Bloco de Esquerda, por Catarina Martins, desafiou Passos a aprovar uma auditoria do Tribunal de Contas sobre esta questão.

«Vamos saber afinal se existem ou não pessoas a trabalhar sem receberem salário, vamos então falar de que economia e de que emprego está a gerar este Governo».


O desafio não obteve resposta do primeiro-ministro.

E o mexilhão?

A expressão que o primeiro-ministro usou recentemente - «quem se lixou não foi o mexilhão» - foi muito usada pela oposição. 

Ferro Rodrigues questionou Passos se o «mexilhão» não são os desempregados de longa duração, os que tiveram de emigrar, «a família com baixos rendimentos que viu o respetivo IRS aumentar», ou a redução de apoios sociais como o complemento solidário para idosos ou o rendimento social de inserção.

Jerónimo de Sousa sublinhou que esta frase mostrou a «insensibilidade social» do Governo.

«Está a ofender milhares de portugueses que sofreram duramente, com o aumento do desemprego, que viram pensões e salários ou cortados ou congelados. Em termos estatísticos, hoje existem mais 600 mil pobres com o seu Governo».


Para defender a sua expressão do «mexilhão», Passos referiu que era apenas um «adágio popular» para justificar a repartição de sacrifícios durante a crise.
 

«Todos fomos chamados a contribuir. A ideia de que só uns pagaram a fatura é falsa. A crise poderia ter sido uma oportunidade para agravar as desigualdades e não agravou».


Durante o debate quinzenal, Passos Coelho fez um balanço de 2014, constatando que o país tem agora um «crescimento sustentável», sem o regresso de «velhas políticas».

A privatização da TAP foi outro dos assuntos em destaque, com Passos Coelho a defender que é a única forma de evitar um despedimento coletivo e de garantir viabilidade a longo prazo e a oposição a acusar o Governo de «entregar» um setor estratégico «de mão beijada».
 
O momento mais quente no Parlamento, esta sexta-feira, foi a discussão entre o primeiro-ministro e a porta-voz do Bloco de Esquerda. Catarina Martins acusou o Governo de ter vendido o BPN como um «favor» a capital angolano e de agora não interceder pelos «interesses do país» na garantia de Angola ao BES.