Fernando Negrão só abandona a liderança do grupo parlamentar do PSD se houver "uma rebelião". A posição foi tomada durante uma entrevista na quinta-feira à noite mas, esta sexta-feira, o deputado confessou que não espera que isso aconteça.

“Não estou à espera de uma rebelião”, afirmou esta sexta-feira, antes de tomar o seu lugar na primeira fila da bancada do PSD.

O novo líder parlamentar voltou assim a tocar no assunto "rebelião" como tinha feito, horas antes, em entrevista à SIC.

"Desisto com muita dificuldade porque quando me proponho fazer uma coisa levo até às últimas consequências. Portanto a minha intenção é levar este desafio até ao fim. Abandonarei a liderança do grupo parlamentar se houver uma rebelião; agora, estamos a falar de pessoas adultas e, para além disso, presumo eu que essa rebelião não esteja em curso", disse na quinta-feira à noite.

Já esta sexta-feira, em declarações aos jornalistas, na Assembleia da República, o novo líder parlamentar social-democrata aproveitou para questionar a coragem dos críticos que votaram em branco ou nulo (53 deputados), mas que não apresentaram uma candidatura.

“Onde está a coragem e o sentido de responsabilidade dos que votaram em branco ou nulo que não apresentaram candidato?”, interrogou-se.

Fernando Negrão foi eleito com apenas 35 votos entre os 88 deputados do PSD que votaram. Na eleição, Negrão conseguiu 35 votos favoráveis, 32 brancos e 21 nulos, tendo votado 88 dos 89 parlamentares sociais-democratas. Apenas o deputado Pedro Pinto não votou, tal como já tinha admitido na reunião do grupo parlamentar em que foram anunciadas eleições antecipadas. Após a eleição, Negrão considerou que os votos brancos dão "o benefício da dúvida" e que por isso tinha "condições para assumir liderança".

Teixeira da Cruz contra Negrão

Apesar de Negrão não estar à espera de nenhuma rebelião certo é que, após a sua eleição, várias vozes se levantaram contra ele, como foi o caso de Sérgio Azevedo - que comparou o facto de usar os votos brancos como votos a favor com a da aprovação da Constituição de 1933 num "Estado autoritário e fascizante" - e a de Paula Teixeira da Cruz que, em entrevista ao Observador, afirmou que que “a liderança da bancada não está legitimada”, nem do ponto de vista político, nem jurídico.

No entanto, o novo líder parlamentar social-democrata desvalorizou estas declarações, considerando que as mesmas são ridículas. 

"São opiniões minoritárias naquilo que é o partido, para além de achar essas declarações de 'fascizantes' desse senhor deputado ridículas; relativamente às declarações da deputada Teixeira da Cruz eu diria que são de uma interpretação jurídica de um regulamento que não é a mesma que eu faço", afirmou.

Esta sexta-feira, Paula Teixeira da Cruz voltou a contestar a legitimidade da eleição como líder parlamentar de Fernando Negrão e disse que “o tempo, esse grande amigo do homem”, se encarregará a resolver a situação.

“O que disse está dito, não vou dizer mais uma palavra. Exceto que o tempo, esse grande amigo do homem, se encarregará de resolver muita coisa”, disse aos jornalistas, no parlamento, em Lisboa.

Quem também comentou a eleição de Fernando Negrão foi Manuela Ferreira Leite, no seu espaço de opinião na TVI24. A antiga ministra desvalorizou as divergências que têm surgido no PSD, incluindo a fraca votação de Fernando Negrão para líder parlamentar, dizendo que a mesma não é "inesperada".

Penso que não é nada de inesperado. Não há surpresa. A bancada parlamentar foi constituída pelo anterior líder, Passos Coelho. Não é uma bancada afeta ao Rui Rio. Não seria de esperar qualquer outra solução, a não ser que tivesse havido uma cambalhota e fossem todos agora do Rui Rio", acrescentou Manuela Ferreira Leite.

A comentadora, militante e antiga presidente social-democrata, alerta, contudo, que os deputados "estão lá em representação das pessoas e não das suas simpatias pessoais".

Se houvesse uma rebelião ideológica, digamos assim, em termos de bancada, isso iria contra os regulamentos", afirmou Ferreira Leite, lembrando que, nesta altura da legislatura, "cada deputado vai começar a trabalhar para ver se entra nas próximas listas de deputados e não para sair delas".