O ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González afirmou esta terça-feira, numa conferência em Lisboa, que «as pessoas estão a passar muito mal, deste lado e do outro lado da fronteira», defendendo que é preciso «reanimar a Europa».

A dificuldade ¿ disse o orador convidado da conferência «O 25 de Abril, 40 anos depois», que decorre na Fundação Calouste Gulbenkian ¿ «não é espanhola nem portuguesa, é europeia», o que exige que a Europa mude, adotando «políticas ativas» e apostando na integração política.

«O que tem de mudar é, sobretudo, a política europeia», insistiu, defendendo uma «Europa que se integre mais politicamente», a que se dê «soberania» partilhada por todos «e não para que nos digam o que temos de fazer». O fundamental é «reanimar a Europa», porque ela está «a perder relevância», resumiu.

«Nada garante que não fiquemos no fundo mais uns anos», antecipou, sublinhando que «não se vê uma clara recuperação para 85 por cento dos cidadãos» e questionando «como é possível uma distribuição tão pouco equitativa do esforço do ajuste» económico e financeiro.

Apesar disso, «deste lado ou do outro lado da fronteira», os cartazes que os partidos dedicam às eleições europeias continuam a falar mais de política interna do que de instituições europeias, observou González.

«Supõe-se que estamos em campanha eleitoral, mas não vejo o Parlamento Europeu em lado nenhum¿» disse. «As eleições provavelmente mais importantes jogam-se no pátio da disputa interna», lamentou, reafirmando-se «um europeu europeísta», que acredita que «a solução é mais Europa», mas defendendo um «europeísmo crítico dos erros que se estão a cometer».

Considerando que «o Parlamento Europeu é a única instituição com legitimidade democrática», González assumiu que não se importava «nada que houvesse um ministro de Economia e Finanças em Bruxelas, desde que legitimado».

Porém, lamentou, «agora não se discute nos conselhos europeus», enquanto «aumenta o distanciamento dos cidadãos face à democracia representativa e aos partidos políticos».

Numa longa intervenção em que recorreu algumas vezes ao humor, Felipe González disse não ter dúvidas de que «valeu a pena» lutar pela democracia, porque «não há nada mais importante do que recuperar a liberdade», mesmo em «tempos de angústia social».

Hoje, diz o ex-secretário-geral do partido socialista espanhol, «há uma confusão, toda a gente acredita que a democracia garante um bom governo quando a única garantia que dá é podermos mudar os governos de que não gostamos».

Reconhecendo as diferenças entre as crises portuguesa e espanhola, González destacou alguns «elementos em comum», nomeadamente a necessidade de «recuperar a competitividade da economia nacional, dentro da economia global». E, assumindo-se um «provocador prudente», sentenciou: «O que não cresce não paga dívidas».