
Um ex-segurança da Central Alto de Mira da REN disse, nesta quinta-feira, ao tribunal de Aveiro, ter recebido uma nota de 20 euros de Manuel Godinho, principal arguido no caso «Face Oculta», admitindo que pudesse ser para o condicionar.
O caso, que aconteceu em 2008, foi relatado por Pedro Correia, que foi hoje ouvido enquanto testemunha de acusação na 74ª sessão do julgamento que está a decorrer no tribunal de Aveiro.
Segundo o vigilante, que trabalha há 16 anos na mesma empresa, Manuel Godinho dirigiu-se à subestação de Alto Mira para se encontrar com Manuel Patrão, responsável por aquelas instalações da REN (Redes Energéticas Nacionais).
«Quando passou pela portaria, ele [Manuel Godinho] dirigiu-se a mim com uma nota de 20 euros enrolada e, no ato de me cumprimentar, colocou-a na minha mão e disse que era para almoçar», afirmou Pedro Correia, que ficou «desagradado» com esta situação.
A testemunha considerou ainda estranha a maneira como a nota lhe foi dada, adiantando ter tido receio que fosse para o condicionar.
«Tendo em conta o que se passou em 2006, achei que aquilo tinha outros interesses da parte do senhor Godinho», declarou.
Logo no início da sessão, o juiz presidente pediu a Pedro Correia para olhar para as pessoas presentes na sala e ver se conhecia alguém, tendo a testemunha reconhecido o sucateiro Manuel Godinho, que foi notificado para estar presente hoje à tarde no tribunal de Aveiro.
Questionado pela mandatária da assistente da REN sobre se o homem que lhe deu a nota de 20 euros era Manuel Godinho, a testemunha respondeu: «Tenho a certeza que foi o senhor Manuel Godinho. Não há qualquer dúvida.»
Já em 2006, Pedro Correia tinha alertado os responsáveis da REN para alegadas irregularidades, envolvendo a empresa O2, de Manuel Godinho, relacionadas com a entrada e saída de camiões «praticamente vazios», durante os trabalhos de desmantelamento da Central de Alto Mira.
À saída da sala de audiências, o advogado que defende Manuel Godinho desvalorizou o depoimento do vigilante, considerando que foi uma perda de tempo para o tribunal.
«A matéria básica é essa. Foi uma gorjeta de 20 euros que foi dada a uma pessoa. Se isto merece que o tribunal perca tempo com uma coisa destas, este país bateu no fundo», disse Artur Marques.
O processo «Face Oculta» está relacionado com uma alegada rede de corrupção que teria como objetivo o favorecimento do grupo empresarial do sucateiro Manuel Godinho nos negócios com empresas do setor empresarial do Estado e privadas.
Entre os arguidos estão Armando Vara, ex-administrador do BCP, e José Penedos, ex-presidente da REN, assim como o seu filho Paulo Penedos.
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