Os cartazes do PS da campanha eleitoral para as europeias mostram uma preparação para as eleições legislativas, segundo duas especialistas, ao notarem o regresso do símbolo do punho fechado e o recurso a anónimos, em vez dos candidatos.

Numa deslocação à Praça de Espanha, em Lisboa, onde são visíveis cartazes dos principais concorrentes às eleições de 25 de maio, Célia Belim regista no cartaz do PS a ausência do logótipo usado anteriormente: a rosa da família europeia socialista.

A professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa refere que o uso de pessoas anónimas mostra uma «candidatura do povo, pelo povo e para o povo».

«É a preparação para as legislativas. Não tem quase qualquer referência às europeias. Poderia ser um cartaz encaixável noutro tipo de eleições, é uma defesa do país e é um estádio preliminar para as legislativas do próximo ano», comenta à agência Lusa.

Comentando as escolhas socialistas, uma docente da Universidade Católica, Rita Figueiras, observou que a estratégia pode relacionar-se com o facto do partido poder ter atualmente «mais notoriedade e valor relativo no mercado eleitoral do que o(s) cabeça(s) de lista e querer fazer destas eleições uma espécie de primárias das legislativas de 2015».

Ao mostrar pistas para «mensagem mais ideológica», a estratégia pode indiciar um «regresso à importância do partido e não só do seu líder», resumiu.

Sobre a opção da coligação Aliança Portugal (PSD/CDS-PP) de não usar cartazes face à crise, Célia Belim sublinha estar a perder-se um instrumento de campanha com um «poder quase milagroso de lembrete».

A abdicação «pode não ser assim tão inteligente, apesar de haver outras tecnologias digitais, porque estas não estão disponíveis a todos públicos», lembra a especialista, avisando que os cartazes geram um «efeito de ressonância» e que «há que explorar subliminaridades da comunicação».

Já Rita Figueiras nota que esta eleição europeia «não é, à partida, nada favorável à coligação governamental«. «Deste modo, uma campanha discreta é uma estratégia preventiva, uma estratégia de "gestão de danos" e de proteção da imagem da coligação governamental», diz à Lusa.

Ainda na Praça de Espanha, é visível a propaganda do BE, com uma foto da cabeça-de-lista Marisa Martins com a «cor clássica» do partido, o vermelho, já que existem outros cartazes centrados no «magenta, num matiz muito escuro», nota Célia Belim.

A frase "De Pé" «pode não ser facilmente percetível», apesar de apontar para «verticalidade, coerência, correção e fidelidade», segundo a académica, para quem as alterações de cor «podem baralhar» os eleitores, mas também são uma «iniciativa de alterar certas rotinas e certos procedimentos clássicos dos partidos».

Por seu lado, Rita Figueiras indica que os partidos mais à esquerda querem «apresentar os candidatos aos eleitores».

«Esta nova fase do BE é menos híbrida, ou seja, a sua estratégia de comunicação inclui menos marcas de um discurso assente no marketing, como chegou a ter no passado. Por sua vez, o Partido Comunista tem-se mantido menos permeável à contaminação do discurso mediático por comparação aos restantes partidos portugueses», concluiu.

Frente ao cartaz com cinco candidatos da CDU a eurodeputados, Célia Belim refere a frase da «missão que o partido encarna: defender o povo e o país».

«A mensagem é corroborada pelas várias linhas que surgem um bocadinho descontextualizadas, mas conseguimos aferir pelas suas cores que são da bandeira portuguesa», afirma a analista, que explica o uso da cor branca de fundo.

«O branco não compromete, mas também tem uma grande carga simbólica, que sintetiza a totalidade, a unidade, a harmonia, a paz, e tem um valor utilitarista, porque não rivaliza com os outros elementos visuais», salienta.