O primeiro alvo do PSD, no debate do Estado da Nação, foi mesmo António Costa, que acusou de ter dado "cobertura política à confusão e patrocínio à desresponsabilização" nos casos de Pedrógão e Tancos. Foram várias as acusações que o líder parlamentar, Luís Montenegro, fez ao Governo, dizendo que a sua liderança foi atingida. O primeiro-ministro contra-atacou, dizendo que o PSD tem falta de sentido de Estado.

Ia o debate em cerca de uma hora (das quatro que estavam previstas) quando Luís Montenegro fez aquela que será a sua última intervenção enquanto líder parlamentar, uma vez que anunciou a saída. 

"Quando temos um país atónito ainda à espera do esclarecimento e consequências da fuga do conteúdo de um exame nacional, parecendo que não aconteceu nada, não havendo beneficiados e prejudicados, o Estado não está a funcionar, está a colapsar", atirou. O verbo colapsar foi, aliás, aplicado noutras referências. 

Quando um ano depois, pelos mesmos factos, aceita demissão [dos três secretários de Estado da Galp], é a liderança do Governo que é atingida. Quando a cultura de mérito e de transparência das nomeações para cargos públicos é subtituída por amiguismos consultores e escritórios que intervêm nos mesmos processos e em lados opostos é o sentido de Estado que está a colapsar"

Não deixou ainda escapar o caso das offshore e da CGD. "Quando primeiro-ministro acusa no Parlamento o seu antecessor de deixar fugir 10 mil milhões de euros para offshores (...). Quando tudo visto e inspecionado se conclui que acusação é infundada e o primeiro-ministro não tem hombridade e humildade é decência política e democrática que estão a colapsar". Aí, viu-se Mário Centeno, o ministro das Finanças, a abanar a cabeça.

Os partidos que apoiam o governo no Parlamento, BE e PCP, foram também alvo das críticas e acusações do principal partido da oposição, a propósito da comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos . Luís Montenegro disse que bloquearam "escandalosamente a descoberta da verdade sobre situação na CGD, mesmo depois de haver decisões judiciais favoráveis ao parlamento para aceder a informação". Socorreu-se ainda da notícia desta semana sobre a suspeita do Ministério Público na concessão de créditos pelo banco público.

PS, BE e PCP não têm vergonha de deixar investigação e escrutínio por fazer, mais grave branqueamento político de que tenho memória no nosso país. E meço as palavras: Se vocês os três pactuarem com o encerramento antecipado da comissão de inquérito à CGD não só prestam mau serviço à República como são co-responsáveis por comportamento cívico indigno da representação soberana do povo português"

Os "cortes cegos" e as cativações mal explicadas e pouco detalhadas estiveram também na mira do PSD neste debate do Estado da Nação. "Quando tudo isto decorre de aplausos entusiásticos de aplausos das três bancadas, é a democracia que está a colapsar".

O mérito dos bons resultados económicos

Embora reconheça que o país está melhor, não é ao Governo que o PSD atribui o mérito. É a si mesmo, quando foi Governo. 

"É verdade que a economia cresce e o desemprego baixou, mas este governo é muito pouco responsável por isso. Não há e desafio-vos a mostrar no debate, não há reforma estrutural e estruturante que tenha contribuído, nem sequer a tão badalada devolução de rendimentos". Para Montenegro, é graças à "herança financeira e reformista" que o atual Governo recebeu, à conjuntura externa "excecionalmente favorável" e à "resiliência, inovação e competência" dos portugueses que o Executivo liderado por Costa tem bons resultados para apresentar.

Para este Governo, tem ainda outras duas palavras: "degradação" e "flop". Enquanto falava, Luís Montenegro recebia risos de deputados à esquerda, que barafustavam de tais palavras.

Costa contra-ataca, Montenegro termina com gafe

Na resposta, e apesar de ter sublinhado o gosto que teve em ter tido um ano e meio de debates com o líder parlamentar do PSD, António Costa contra-atacou.

A sua visão resume-se aos últimos 15 dias, na sofreguidão de atacar governo, CGD, exames nacionais, sistema de proteção civil e próprias Forças Armadas. Senhor deputado, o que aqui assistimos foi o colapso do sentido de Estado do PSD. A política não é só para os dias fáceis"

Constatou ainda que o PSD, que foi o partido que propôs uma comissão técnica independente sobre o que aconteceu em Pedrógão Grande, tem "já tantas certezas que lhe permita condenar tudo desde o cabo da GNR à senhora ministra". 

À ironia de Costa juntou-se, antes, uma gafe de Montenegro, quando dirigindo-se a João Galamba, ao lembrar que o Governo que os portugueses escolheram nas urnas foi o do PSD, disse: "O país seria mais risco... Mais rico, mais próspero e justo" com liderança social-democrata.

A seguir, foi a vez de João Paulo Correia (PS) tomar a palavra para atacar a oposição: "Este foi um ano bom para o país, mas foi um ano mau para a oposição. (...) A oposição falhou, o país está melhor. A realidade derrubou o discurso da oposição.".

Cristas fala nas mesmas "trapalhadas"

Tal como o líder parlamentar do PSD, a líder do CDS, Assunção Cristas também fez questão de elencar as "trapalhadas" do Governo,  na educação (com a fuga no exame de português, o erro no exame de matemática e a ameaça de greves por parte dos juízes. Isso para além dos casos de Pedrógão Grande e Tancos

Também as demissões o Governo, um ano depois do caso das viagens da Galp ter rebentado não foram esquecidos: "Mais um caso de montagem de narrativas ou quer-nos fazer crer que todos do seu governo intuição de tal forma apurada pedir demissão três dias depois do despacho do Ministério Público?", ironizou, para depois constatar:

Não tem um governo, tem sucessão de casos de ministros que o senhor desconsidera e ultrapassa num dia e segura no outro, secretários de estado que se demitem com ano de atraso. E é o Governo da austeridade dissimulada".