O deputado socialista José Magalhães criticou esta quarta-feira as mudanças introduzidas no programa de assistência financeira a Portugal desde 2011, dizendo que «se o memorando fosse a Vénus de Milo teria já quatro braços e dois bigodes».

Na sua primeira intervenção em plenário na presente legislatura - depois de ter suspendido funções parlamentares a partir de 2005 para desempenhar lugares nos executivos de Sócrates -, José Magalhães provocou risos nas bancadas da oposição e motivou reações contundentes por parte de dois vice-presidentes do Grupo Parlamentar do PSD, Luís Menezes e Teresa Leal Coelho.

Luís Menezes acusou José Magalhães de ter feito parte do Governo responsável pela assinatura do Programa de Assistência Económica e Financeira a Portugal (PAEF) em maio de 2011 e Magalhães respondeu imediatamente com uma nota de humor: «Se o memorando fosse a Vénus de Milo, a esta hora já teria quatro braços e dois bigodes.»

Na sua intervenção de fundo, o ex-secretário de Estado dos governos de José Sócrates acusou o atual executivo PSD/CDS de usar «fumaça tóxica» na sua comunicação política, dando como exemplo a utilização de expressões como «reforma» ou «recalibragem» que, na sua perspetiva, «não significam mais do que escavacar com o Estado social».

«Este Governo exprime-se de uma forma estranha, fazendo mesmo lembrar aquele intérprete de linguagem gestual sul-africano», disse, motivando uma interpelação à mesa da Assembleia da República por parte da vice-presidente do PSD Teresa Leal Coelho.

«Peço à mesa que distribua a todos os deputados o texto do memorando inicial assinado pelo Governo do PS com a troika em maio de 2011, no qual se pode ler a utilização da palavra recalibragem», referiu a vice-presidente da bancada social-democrata.

Pouco antes de Teresa Leal Coelho, Luís Menezes tinha deixado outros apelos, esses dirigidos especificamente à bancada socialista, no sentido de que o PS não se esqueça que o desemprego já baixou dois pontos percentuais desde o último ano e acabe de vez com a «guerrilha face ao atual Governo, que está a tirar este país da bancarrota».

José Magalhães ripostou, defendendo a tese de que é «essencial acabar com os diálogos de surdos» nos debates parlamentares.

«O Governo quer a colaboração do PS para a sua guerrilha contra a Constituição, mas para esse peditório não daremos um cêntimo», frisou.

Já o deputado do PCP António Filipe saudou o regresso de José Magalhães à Assembleia da República, classificando-o um fator «de valorização do Parlamento».

«Mas a sua intervenção trouxe-nos a preocupação de o PS insistir na mudança das leis eleitorais», referiu António Filipe, garantido, depois, que o PCP dará combate «a qualquer tentativa de forçar a bipolarização política por via de engenharias eleitorais».

José Magalhães esclareceu então que o PS defende que, na sequência das últimas eleições autárquicas, se «corrija o que está mal no relacionamento com a Comissão Nacional de Eleições».