O ex-Presidente da República Mário Soares criticou, esta terça-feira, o primeiro-ministro por entrar em polémica com os manifestantes contra o Governo e aconselhou o PS a dialogar e ouvir a sociedade se quiser ter maioria absoluta nas eleições, informa a Lusa.

Mário Soares considerou que a manifestação de sexta-feira passada, convocada pela CGTP-IJN, «impressionou pelo seu volume e pela indignação que foi demonstrada pelas pessoas, numa época de crise global, que vem de fora para dentro».

Neste quadro, o ex-chefe de Estado defendeu que o Governo socialista «faria bem em dialogar e ouvir, em vez de entrar em polémicas sobre uma manifestação». «É certo que as manifestações não resolvem nada, que não é na rua que há soluções para os problemas, mas a manifestação de sexta-feira foi um sinal de grande descontentamento», advertiu.

Confrontado com a acusação do primeiro-ministro de que a manifestação de sexta-feira foi instrumentalizada pelo PCP e Bloco de Esquerda, Mário Soares demarcou-se e respondeu: «Não vejo vantagem nenhuma que ele diga isso.»

«Sócrates não deveria polemizar manifestações»

«Ele [José Sócrates] lá terá as suas razões para dizer isso e eu não estou aqui para o atacar, até o quero defender. Simplesmente acho que essa não é a melhor maneira de resolver os problemas», considerou.

Para Mário Soares, «num momento em que vai tudo para pior e em que há muitas razões para indignação, o primeiro-ministro não deveria estar a polemizar a propósito das manifestações».

«Ele pode ganhar a maioria absoluta se houver diálogo com os sindicatos, com os partidos e com as pessoas. Num momento tão grave da vida nacional, os partidos têm de pôr um pouco de lado as suas pretensões próprias e devem ter a humildade de ouvir e de falar», avisou.

Manuel Alegre e a necessidade de dialogar

Interrogado sobre a possibilidade de a corrente de Manuel Alegre entrar em dissidência com o PS, o ex-chefe de Estado afirmou não acreditar nesse cenário. «Não acredito que haja dissidência. Penso que, do ponto de vista do PS, as coisas vão correr razoavelmente bem», advogou.

No entanto, Mário Soares advertiu que «é preciso que o PS seja suficientemente aberto, não só para dizer que muda para a esquerda - e isto com muito agrado meu -, mas que traduza essa mudança em factos».

«O PS tem de dialogar com as pessoas. E, para dialogar com as pessoas, não pode ser de uma maneira em que todos fiquem zangados uns com os outros», acrescentou.