O dirigente socialista António Costa afirmou nesta terça-feira não ter qualquer embaraço em relação à História do PS, criticando a atual direção por «nunca se libertar» da agenda do Governo e por viver com «fantasmas» dos governos Sócrates.

Estas posições foram assumidas pelo presidente da Câmara de Lisboa numa entrevista à SIC-Notícias em que colocou como objetivo, se for líder do PS, a obtenção de uma maioria de Governo, mas sem dispensar o diálogo político com os outros partidos parlamentares.

«Cada um deve ter a liberdade obviamente de se excluir, mas ninguém tem o direito de excluir quer quem que seja do diálogo político. Temos de fazer um diálogo político alargado e com a concertação social», defendeu o autarca de Lisboa, antes de criticar a direção liderada por António José Seguro pela análise que fez aos resultados das últimas eleições europeias.

«Aquilo que acho impossível é a reação que a direção do PS teve aos resultados das eleições, dizendo com grande satisfação que não há solução de Governo sem o PS. Mas o que as pessoas pedem é que o PS seja a solução de Governo, faça a diferença e, para isso, é preciso converter a maioria do contra [ao executivo PSD/CDS] numa maioria favorável à mudança. A minha ambição para o PS é a de que o partido tenha uma maioria», frisou.

De acordo com António Costa, se o PS apenas pretender ir para o Governo, tendo depois de estar «prisioneiro» de outros parceiros, «arrisca-se a provocar uma enorme desilusão nas pessoas».

António Costa considerou depois que um dos principais erros da direção do PS foi o de «nunca ter sido capaz de se libertar da agenda que o Governo lhe apresentou, tendo andado sempre a discutir coisas pequeninas, se o corte era maior ou menor, se o ritmo de consolidação era maior ou menor».

Outro «grande» erro da equipa de Seguro, segundo o autarca de Lisboa, aconteceu quando impôs a abstenção ao Grupo Parlamentar do PS no Orçamento para 2012.

«E [a direção do PS] até se opôs a que deputados socialistas recorressem ao Tribunal Constitucional, o que fizeram à revelia da direção, tendo aí obtido ganho de causa. Nós não podemos agora reconstruir a História e há uma coisa que ninguém consegue fazer: Libertar-se do passado que tem, porque o passado, bom ou mau, está feito», disse, antes de se referir diretamente aos governos socialistas de José Sócrates para criticar a atitude do núcleo dirigente de Seguro.

«Quando queremos fingir que o passado não existe, nem conseguimos assumir o bom, nem conseguimos condenar o mau. Ficamos apenas numa posição embaraçada. Não podemos viver com fantasmas relativamente ao passado se queremos construir um futuro credível», advogou.

No final da entrevista, Costa foi ainda mais longe: «Não vivo com embaraço a História do meu partido. Há pessoas que passam na vida política para ver se ninguém dá por elas, se passam pelos pingos da chuva, evitando cargos difíceis, e só vão a eleições quando estão ganhas à partida», declarou.

Um erro básico que o PS deve assumir em relação aos governos de Sócrates, na perspetiva de Costa, «é que houve muitas vezes excesso de voluntarismo, prescindido do consenso social para tomar determinadas medidas (por exemplo, a guerra com os professores), ou dispensando consensos políticos para grandes projetos de obras públicas».