Marisa Matias por várias vezes, em entrevista à TVI e TVI24, usou o artigo “a” antecedido de Presidente, para clarificar que o chefe de Estado não tem de ser, necessariamente, um homem. A candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda foi a última a entrar na corrida, reconheceu-o sem problemas, bem como às dificuldades que pode encontrar, mas assume que se candidatou para tentar disputar uma segunda volta.

“Vou disputar a segunda volta por dificil que possa parecer, não tenho medo da dificuldade nem de trabalhar para isso. Vou fazer por merecer e sei que tenho muito trabalho para fazer porque chego mais tarde do que os outros”

 
O seu principal adversário? “É obviamente o candidato de direita, Marcelo Rebelo de Sousa”.
 
As sondagens dão o professor e ex-presidente do PSD como favorito a larga distância dos outros candidatos (Marisa Matias fica-se pelos 3%). A eurodeputada diz que isso é “factual”, mas entende que se ela própria, ou qualquer outro candidato tivesse tido, “semanalmente, durante 10 anos” oportunidade de comunicar com as pessoas, “provavelmente” o cenário seria hoje diferente, embora tenha recusado que a televisão produza um candidato.
 
Marisa Matias recusa que a sua candidatura seja uma “extensão” das propostas do Bloco de Esquerda, mas não vê o apoio de um partido político a um candidato presidencial como um problema e entende que é mais importante ser independente a outros níveis, como da Finança e da indústria farmacêutica, exemplificou.
 

“O Presidente da República em funções tratou de maneira diferente as pessoas e a finança, com vantagem para a finança. O PR não tem de ser o garante da estabilidade dos poderes económicos, tem de ser garante da estabilidade e da vida das pessoas que vivem aqui”


Disse ainda que a sua candidatura surgiu pela “necessidade de dar voz, visibilidade e fazer um debate politico em torno das presidenciais que não seja vago e redondo, mas que traga problemas concretos, um país invisível, mas onde a dignidade impera e a austeridade foi imposta”.“Não, não vejo, não vejo verdadeiramente este debate nas outras candidaturas”, atirou ainda.
 

"Um PR não faz jogos, cumpre regras"

 
As críticas a Cavaco Silva estenderam-se à atuação do chefe de Estado depois das eleições legislativas de 4 de outubro, com Marisa Matias a acusá-lo de ter tido um “caderno de encargos” para a Assembleia da República e para o Governo: 

“O Presidente da República entendeu suspender a democracia durante mais de 50 dias, como entendeu fazer do ato eleitoral e da sequência desse ato um jogo. Um PR não faz jogos, cumpre regras”. 

 
O aviso de que ainda poderia demitir o Governo e a chamada “bomba atómica” de dissolução da Assembleia, estando “permanentemente na mão, seguramente não dá garantias de estabilidade”, defendeu.
 
“Só há duas formas de fazê-lo: se o governo perder maioria do apoio parlamentar e não houver condições para continuar no exercício das funções e outra é exonerando o primeiro-ministro se ele falhar completamente em relação aos seus deveres de Estado. Nenhuma dessas situações existe na atualidade. não vale a pena criar fantasmas em relação ao que não existe”.
 
Por isso, entende que o fator de instabilidade não vem dos acordos à esquerda. “Veio do Presidente da República. O acordo nem precário nem contraditório, é muito concreto em várias matérias”.
 

Tratado Orçamental e NATO? "Temos de acabar com esta farsa"

 
Quanto às garantias de cumprimento dos acordos internacionais como o tratado orçamental e a NATO, que BE e PCP contrariam nas suas propostas políticas, e que, segundo Cavaco Silva, os acordos à esquerda deixam “dúvidas”, Marisa Matias tenta descomplicar a questão, dando como exemplo o que outros países fazem, sem consequência de maior:
 
“Temos de acabar com esta mentira e esta farsa que se tem feito relativamente ao Tratado Orçamental. Não há o mesmo tipo de preocupação relativamente ao cumprimento como Alemanha, França, Itália ou Espanha. Esses países também assinaram, esses países também assinaram. A questão não é quem é que está a cumprir... À chantagem tão permanente sobre portugueses, eles devem perguntar-se se esta politica de austeridade está a funcionar ou não. E se há alternativas ou não. E há sempre alternativas em democracia”, começou por dizer.
 
Relativamente à NATO, escudou-se na Constituição:

“Não sei se os outros candidatos andam distraídos ou não, mas todos juram defender a constituição, que tem um artigo que defende a dissolução dos blocos militares. O único que resta é a NATO. É uma falsa questão...”.

 
Se o atual Governo de António Costa se compromete a cumprir estes acordos, poderia haver conflito com Marisa, a Presidente? A candidata respondeu assim:“Nas questões essenciais não há conflito. Em relação a tudo o resto, de cada vez que as instituições e o povo se levanta para defender os seus direitos, garanto-lhe que eles são cumpridos. Não caiu nenhuma trovoada em Portugal nenhuma tempestade cada vez que o Tribunal Constitucional disse que se devia garantir os direitos”. “Eu estou do lado do Tribunal Constitucional”, assegurou.
 
Se não passar à segunda volta, Marisa Matias apoiará “o candidato de esquerda que estiver melhor colocado”. “Penso que nestas coisas haverá reciprocidade. Penso que todos os candidatos se juntarão para apoiar essa candidatura”.