O diretor do Instituto de Relações Internacionais considerou hoje que a conquista do Congresso e do Senado norte-americanos pelos republicanos fragiliza o Presidente Obama e dificulta a conclusão do tratado de livre comércio com a União Europeia.

A vitória do Partido Republicano nas eleições intercalares (meio de mandato presidencial) nos Estados Unidos, constitui «más notícias para o Presidente [Barack] Obama quer na política interna quer na política externa», disse o investigador de relações internacionais à agência Lusa.

Segundo Carlos Gaspar, apesar de a situação já ter precedentes, o Presidente dos Estados Unidos da América vai passar a enfrentar Senado e Câmara dos representantes «nas mãos do Partido Republicano», numa altura em que ainda faltam cerca de dois anos para terminar o seu mandato.

«É sempre uma situação muito difícil, onde o espetro da paralisia está sempre presente», considerou, explicando que o Presidente Obama vai ter de «reorganizar as suas prioridades, sobretudo na dimensão interna, para poder manter o Governo norte-americano em funcionamento, designadamente no processo orçamental».

Por outro lado, alertou Carlos Gaspar, Barack Obama também terá de «negociar todas as medidas relevantes de política internacional que queira tomar, sobretudo se se puser a questão de uma intervenção com recurso a força militar, como pode ser o caso, mais uma vez, no Médio Oriente».

As dificuldades de Obama vão ser significativas também num outro domínio, para o qual o Presidente precisa muito do Congresso: a negociação do Tratado Transatlântico.

Classificado como prioridade de Obama no discurso que fez imediatamente a seguir à sua reeleição, em 2012, o Tratado Transatlântico consiste na criação de uma zona de livre comércio entre os Estados Unidos e a União Europeia, para impulsionar as economias dos países envolvidos.

Um acordo que, tanto o Presidente norte-americano, como vários dos líderes europeus garantem que irá criar «crescimento e emprego em ambos os lados do Atlântico», mas que os republicanos consideram poder pôr em causa as políticas de proteção social e o direito de trabalho.

«Em ambos os casos – [no que se refere ao Tratado Transatlântico e também no Tratado de parceria do Pacífico] - o Congresso tem responsabilidades e poderes próprios e esta diminuição do poder do Presidente e mudança dos equilíbrios tornam essa negociação mais lenta e mais difícil», adiantou o investigador.

Apesar de as negociações entre os Estados Unidos e a União Europeia estarem a avançar lentamente, Carlos Gaspar disse acreditar que «havia ainda a possibilidade de – caso o resultado destas eleições não fosse tão negativo – de este tratado ser concluído antes do fim do mandato do Presidente Obama».

Agora, em sua opinião, «essa perspetiva parece mais remota».

O resultado das eleições intercalares implica que o Partido Republicano, mais conservador, mantenha o controlo da Câmara dos representantes e passe a ter a maioria das cadeiras do Senado.

Barack Obama, do Partido Democrata, mais liberal, “vai precisar certamente de ter aliados no Partido Republicano e neste momento isso não é fácil”, apontou o diretor do Instituto Português de Relações Internacionais.

Segundo o investigador, “Obama vai sair como um Presidente fraco e, eventualmente, isso pode condicionar a fase seguinte, em que tudo vai estar concentrado na escolha do próximo candidato presidencial do Partido Democrata”.