O presidente da Assembleia da República apelou, esta terça-feira, aos diferentes partidos para que concertem posições em torno de interesses estratégicos nacionais, designadamente no "repúdio" face à eventual aplicação de sanções a Portugal pelas instituições europeias.

Este repto foi deixado por Eduardo Ferro Rodrigues na abertura do Fórum de Políticas Públicas, na sala do Senado, na Assembleia da República - iniciativa do ISCTE, moderada pela antiga ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues.

Na intervenção, em que introduziu algumas notas de improviso, o presidente da Assembleia da República referiu-se à aprovação da Constituição da República há 40 anos e defendeu a necessidade de se "revisitar" esse "espírito fundador da democracia e saber convergir, hoje, de novo, naquilo que é estratégico e vai além do tempo da legislatura".

"Falo uma vez mais aqui da aposta na qualificação e na educação, mas também da política de investimentos, e de apoio à inovação e à iniciativa, da sustentabilidade dos sistemas de saúde e de segurança social, dos incentivos à natalidade, da revalorização do trabalho, ou da necessidade de nos concertarmos de novo acerca da Europa", disse.

No ponto referente à Europa, Ferro Rodrigues deixou uma sugestão bem concreta, referindo-se ao exemplo que resultou da visita oficial realizada na segunda-feira pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, à Alemanha.

"O que se está a passar quanto ao repúdio pela eventual aplicação de medidas punitivas pelo exercício orçamental de 2015" constitui, para o presidente da Assembleia da República, "uma boa oportunidade" para essa convergência estratégica entre as diferentes forças políticas.

Na intervenção, o presidente da Assembleia da República voltou a defender uma reforma do sistema político, alegando ser necessário "mais transparência", nomeadamente "no exercício de cargos públicos e na forma de comunicação com os cidadãos".

Porém, Ferro Rodrigues, em paralelo, também defendeu a necessidade de existência de diferenças entre as forças políticas como fator essencial para a saúde da democracia portuguesa, recusando as lógicas de "grandes coligações" políticas inerentes a algumas experiências europeias.

"A perceção de que são todos iguais e de que já não há diferenças entre esquerda e direita no contexto europeu é fatal. Está, aliás, a ser fatal para muitos partidos de governo por essa Europa fora. Em Portugal, felizmente, são hoje bem claras as diferenças", observou.

Em síntese, eis a tese preconizada pelo presidente da Assembleia da República: "Sem confronto não temos democracia, mas sem diálogo dificilmente teremos um processo de decisão política mais qualificado".