Já lá vão nove dias de campanha eleitoral. Todas as sessões públicas tiveram apenas dois discursos: o do mandatário e o do candidato. Desta vez, subiu ao palco um amigo de longa data. Eduardo Barroso marcou presença no cineteatro em Almada. Foi convidado por Marcelo e fez o discurso que marcou a noite. Com uma rifa e duas revelações. 

Um reposteiro novo na casa de Barroso, homem de esquerda, sobrinho de Maria Barroso e Mário Soares, deu azo a uma conversa sobre as orientações políticas de cada um dos dos dois amigos que se conhecem desde sempre. "Claro que nos primeirosanos só balbuciávamos ou babávamos em conjunto na escola", gracejou.

Mas voltemos à história: era véspera das eleições para a câmara de Lisboa, há vinte e tal anos. 

"Com a sua irreverência e sentido de humor atribuiu logo àquele reposteiro o meu aburguesamento", contou hoje Eduardo. Marcelo dizia que o país tinha "fragilidades muito grandes" e que sua costela liberal estava a dar de si. Cita-o:

"Tu estás a ir da esquerda para a direita, eu estou a ir da direita para a esquerda"


Marcelo, o (des)orientado. Ora, vinte e tal anos depois, Marcelo, o candidato, já nesta campanha se autoclassificou como "da esquerda da direita". Tem apregoado e prometido ser um Presidente acima dos partidos políticos, ao centro.

A história foi contada para Eduardo Barroso querer dizer que o que está em causa, nestas eleições, "não é um voto de esquerda ou de direita", mas na pessoa que, defende, está "melhor preparada" para ser Presidente. 

Tanto que ele recusou o convite de Sampaio da Nóvoa para integrar a sua comissão de honra. Eis, então, a segunda revelação: "Devo dizer, não é, também convém dizer porque depois eles vão dizer que não convidaram nada, que não fizeram nada. E que disse que votar no Marcelo é como votar numa rifa. Então, fui tirar uma rifa pá, e fui saber o que é que saía na rifa. E afinal estava premiada. Então, Marcelinho, o que é que diz a rifa:
 
"Muito emocionado", reagiu o candidato, lendo no discurso do amigo Eduardo Barroso aquilo que "desde o início" quer para a sua campanha: uma campanha de afetos. Foi nessa mensagem que insistiu, defendendo-se mais uma vez de quem a tem criticado. "Qual é o problema disso, à saída de uma crise? Esperar-se-ia uma campanha espetacular? Eu que sempre defendi o contrário disso?".

Em repeat também a necessidade de convergência e de "curar as feridas políticas" para se conseguirem  consensos de regime e estabilidade política. 

A quatro dias do fim da campanha eleitoral, como nos últimos discursos, grande ênfase contra a abstenção. "Votem em quem quiserem, Não podem é dizer que se desinteressarem do voto, mais tarde a responsabilidade do que lhes aconteceu é alheia". 

O cineteatro pequeno encheu-se de aplausos e vivas a Marcelo tanto à chegada como à saída, já lá fora. Na primeira fila, estiveram presentes mais duas personalidades políticas da direita: Fernando Negrão (PSD) e Nuno Magalhães (CDS).