Edgar Silva é o candidato a Belém apoiado pelo PCP. Mas não é o típico candidato comunista: tem outro registo, outro tom, outro discurso. Os valores, os princípios, a ideologia é a mesma. Mas a apresentação é diferente. E essa diferença permitiria a Edgar Silva captar outros eleitores. 

O próprio já admitiu que a sua candidatura quer abarcar mais do que o eleitorado do PCP. O que lhe valeria captar os descontentes que normalmente votam PS, antes que seja Marisa Matias, apoiada pelo Bloco de Esquerda, a conseguir esses votos. O que aliás costuma acontecer: quando o candidato socialista desilude - como aconteceu nas eleições legislativas - é o BE que sobe.

E Edgar Silva estava lançado nesse caminho: chega às pessoas nas ruas, é simpático, afável, carinhoso até. A missão que levou a cabo na Madeira, de ajuda aos mais pobres e às crianças, primeiro como padre, depois como deputado regional, dá-lhe essa vantagem de não parecer um político.

E Edgar tem o seu caminho bem pensado: sabe que neste dia quer ir à PSA de Mangualde, mesmo sujeitando-se a estar à porta, a entregar panfletos e a receber em troca algumas caras fechadas que correm para o portão de entrada. Claro que também há momentos gratificantes para quem anda na campanha em busca de um voto de cada vez: e claro que esses momentos - porque têm conteúdo, conversa, interacção - cabem na reportagem. E aí, a tática do voto a voto multiplica-se exponencialmente. 

Sobretudo por isso - porque os 15 dias de campanha são feitos para jornalista ver e mostrar aos espectadores e leitores - é que é incompreensível que os comunistas não consigam resistir a insultar a comunicação social em comícios e sessões públicas.

O PCP ao contrário de Edgar vive num paradigma bélico de luta constante. A linguagem é combativa e extremada. Edgar percorre o outro extremo: pede que não se adie o amor, nem a vida. Pede união e compaixão. 

Só que nos comícios da noite há sempre uns senhores da estrutura local - responsáveis por terem levado ali as 200 pessoas que saíram de casa, à noite, com frio e chuva, para gritar "Edgar avança com toda a confiança" - e portanto esses senhores também querem 5 minutos de glória.

Bem sei que a organização do PCP resiste bravamente há décadas em Portugal e a estratégia prova que a máquina oleada do partido sabe muito bem o que faz. Mas os jornalistas - acreditem - também têm uma infinita paciência e até uma certa complacência com os tiques do PCP.

Em Braga já tinha havido críticas aos órgãos de comunicação social, que estão "ao serviço dos grandes grupos económicos de media" sem dar um único exemplo dessa parcialidade que acena do palanque para conseguir umas palmas. 

Sabemos que aquilo é uma cassete, mas lá porque decoraram a ladainha não quer dizer que não sejam responsáveis pelas acusações que fazem. E ontem à noite, bem, a coisa piorou porque o mandatário por Aveiro decidiu apontar o dedo à TVI. 

Ora, meus caros leitores, quem não se sente não é filho de boa gente e portanto a equipa da TVI recusa-se a encolher ombros como se nada tivesse acontecido.

No sábado, véspera do arranque oficial de campanha, apontou ao candidato gafes durante o discurso. Edgar Silva encerrou a pré-campanha no Barreiro e na Moita, terras comunistas, onde se sente como peixe na água. Mas atirou-se para fora de pé. Afirmou que a coligação PSD/CDS-PP tinha perdido as eleições legislativas e que todo o trabalho de quem faz sondagens era mentira, porque tinham dado a vitória à coligação "Portugal à Frente".

Não é preciso recuar muito para refrescar a memória e relembrar que o PSD foi o partido mais votado, formou governo e só depois de derrubado Passos e Portas a esquerda chegou ao executivo, através das negociações à porta fechada com António Costa.

Adiante, a seguir Edgar Silva refere-se às eleições presidenciais de 1985. Ora, mais um facto errado, foram em 1986. A TVI notou as gafes do candidato e fez-lhes referência. A candidatura nunca desmentiu.

Porém, há sempre um arauto da razão. Vestido de verde alface, o ilustre desconhecido sobe ao palco e desata a desbaratar. Para ele a comunicação social está dominada pela direita e pelo candidato Marcelo Rebelo de Sousa.

A TVI pergunta à equipa da candidatura quem é o orador e a resposta é um surpreendente "não sei". Estranhando o desconhecimento e acreditando que o PCP não permitiria que um qualquer usasse da palavra antes do candidato, fomos ao próprio orador. Apresenta-se como Paulo Gonçalves, mandatário distrital de Aveiro. É estranho a equipa de Edgar não saber quem ele é. Ou não ter interesse em dizer quem é.

Paulo Gonçalves insiste. "Querem mostrar que o candidato não está preparado. Não são gafes! A direita perdeu as eleições, isto é uma tese política". É a tese política do PCP e pode ser divulgada no jornal do Avante, mas factos são factos. E o facto é que o candidato errou duas vezes em factos históricos no mesmo discurso. 

Porém, a candidatura de Edgar Silva deixa o próprio mandatário a falar sozinho. Não subscrevem as críticas feitas e garante que se tiverem queixas a fazer sobre o trabalho da comunicação social usará os meios próprios para apresentá-las. E têm queixas?, queremos saber. "Até agora não temos qualquer apreciação crítica a fazer à cobertura jornalística da candidatura", refere fonte oficial.

Então, por que razão em cada comício, em cada terra, os jornalistas ali sentados têm de escutar tamanhas barbaridades?

Paulo Gonçalves critica aquilo que chama, com sentido pejorativo, a "avidez jornalística". Nós lamentamos aquilo que parece ser apenas pequenez intelectual.

Eu sei que historicamente o PCP não convive bem com a liberdade de expressão. Basta conhecer minimamente a história dos partidos comunistas. Mas o mundo mudou, o muro caiu e está na hora da cassete passar a digital ou pelo menos para o lado B. Se acham que esses discursos coléricos contra os jornalistas servem algum propósito, estão enganados.