Quando se ouve o nome de Marcelo Rebelo de Sousa a assistência apupa. A vaia é já um reflexo condicionado. Passos, Portas, Cavaco e Durão Barroso recebem o mesmo tratamento em todos os comícios do PCP: um sonoro assobio coletivo.
 
Mas, desta vez, Edgar Silva não deixa passar a vaia em claro. Normalmente, sorri e prossegue o discurso. Este domingo aproveitou a reação da assistência para lhes dar um recado: e os seis mil que rumaram ao centro de congressos em Lisboa, num domingo de frio e chuva – para o maior comício desta campanha – ouviram com atenção: “Não basta apupar. É preciso mobilizar para derrotar a direita”. Porque “nada está decidido. Ninguém ganha sem o voto do povo”. E insiste: "Não estamos condenados de ter uma vida azeda”.
 
A tese de Edgar já foi ouvida durante a primeira semana de campanha e o objetivo é sempre o mesmo: não deixar Marcelo Rebelo de Sousa ganhar à primeira volta. E o apelo repete-se: um candidato de direita em Belém seria um travão ao Governo socialista, apoiado no Parlamento pelo PCP e BE.
 
Antes, Jerónimo de Sousa fazia o mesmo caminho e agigantava o medo de ter o Marcelo na cadeira do poder, como se de um regresso ao passado se tratasse: o secretário-geral do PCP garante que, lá chegado, Rebelo de Sousa “será um posto avançado de ataque a qualquer política progressista”, referindo-se à reversão das medidas impostas no mandato do anterior Governo. Porque, garante, o candidato da direita fará a “desforra” da derrota do executivo PSD-CDS.
 
As ideias são aquelas que ao longo da última semana Edgar Silva tem repetido. Mas o cenário é bem diferente: o candidato teve o seu segundo banho de multidão – há uma semana no Porto, também com Jerónimo de Sousa, e o distrito sob um tempo inclemente e alerta laranja, reuniram-se no Palácio de Cristal quatro mil. O deste domingo bateu essa marca e é, por isso, o maior comício nesta campanha e o maior da vida de Edgar Silva.

Numa campanha em que, com exceção do Bloco de Esquerda, as outras candidaturas não têm máquinas partidárias a funcionar, pelo menos no sentido clássico do termo – um porque não quer (é o caso de Marcelo) os outros porque não receberam apoio formal do Partido Socialista (é o caso de Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém) – dificilmente assistiremos a tal mobilização.

Aqui a responsabilidade é inteirinha do PCP, que sabe o que faz: quando um comício é marcado não existe o risco da sala não encher; a máquina sabe trabalhar, trazer militantes e fazer uma festa. Hoje não foi exceção. Se isso traz votos no dia 24? Boa pergunta. As próximas sondagens vão já refletir a primeira campanha na estrada. E para quem não era conhecido do grande público, só com a campanha oficial, e a cobertura mediática diária, pode esperar alcançar o reconhecimento que o pode fazer subir nas sondagens. 

São favas contadas? Talvez. Talvez Marcelo tenha a eleição ganha. Mas ainda falta uma semana. Já fiz campanhas em que os candidatos não tinham chance nenhuma. E em 15 dias tudo mudou. Só para dar três exemplos: Rui Rio, em 2001; Paulo Rangel em 2009, a coligação Portugal à Frente em outubro.
 
A razão é simples: o impacto mediático é bem diferente do que era há uns anos e é exponencial num tempo digital e de canais de notícias. Por isso, acredito que a campanha oficial conta mais do que os fazedores de opinião acreditam. Talvez a esses fizesse falta fazer uma campanha na estrada.