«Foram 15.830 minutos e consegui estar presente em todos». O deputado relator da comissão de inquérito ao BES/GES, Pedro Saraiva, congratulou-se esta quinta-feira por ter acompanhado as 55 audições na sala 6 do Parlamento, que foi notícia quase diariamente de novembro de 2014 a março de 2015. Uma comissão inédita: há essa sintonia entre todos os deputados, que entende que os trabalhos decorreram com imparcialidade, na medida do possível, e «dignificaram» a democracia e a Assembleia da República. 

Pedro Saraiva, que é também deputado do PSD, transmitiu a «sensação de dever cumprido» logo quando começou a sua apresentação de 25 páginas. O relatório, esse, tem 400. 

«Procurei assegurar com rigor, isenção e dedicação. Empenhei-me de alma, coração e cabeça. Prometi, quando fui eleito, trabalho e inspiração»

Recebeu, de resto, elogios dos deputados de todas as cores políticas. «Dificilmente podia ter feito melhor», disse Pedro Nuno Santos, do PS. 

Carlos Abreu Amorim, do PSD, destacou o «conhecimento exaustivo» que o relator revelou ter. Cecília Meireles destacou que cumpriu «rigorosamente o combinado», que todas as pessoas iam ter conhecimento do relatório ao mesmo tempo, «para um trabalho isento e de consenso».


Também o deputado do PCP, Miguel Tiago, assinalou «o trabalho de compilação, diagnóstico e detalhe da parte descritiva do relatório». 

«Não esperávamos, da parte do PCP, uma total consonância na abordagem dos factos, julgo que já se torna evidente que essa dissonância surgirá, mas isso não diminui em nada o agradecimento do trabalho que o senhor deputado realizou e do conteúdo interpretativo do relatório», afirmou, fazendo um «balanço positivo». 


Maria Mortágua, por sua vez, assinalou «o exercício bastante admirável de democracia de que nos devemos orgulhar, e o trabalho de todos os deputados». Algo frisado, mais ou menos pelas mesmas palavras, por todos os deputados que intervieram e que consideraram que os propósitos da comissão foram, genericamente, cumpridos. 

Mas quem recebeu rasgados elogios foi mesmo o presidente da comissão de inquérito, Fernando Negrão. Teve sempre uma postura assertiva, mas bem humorada na comissão de inquérito. A mesma deputada bloquista destacou «a inteligência discreta do senhor presidente da comissão». Ele logo brincou: «O que me interessa é que sou inteligente e discreto».

Todos, sem exceção, congratularam o homem que dirigiu os trabalhos da CPI.  Pedro Nuno Santos, do PS,por exemplo: 

«Foi determinante para que as audições da CPI funcionassem bem. Queria muito elogiar a determinação do seu trabalho, a forma rigorosa com que dirigiu o seu trabalho. Foi duro quando teve de ser. Quero agradecer em nome do Partido Socialista a forma como ajudou a dignificar os trabalhos desta comissão». «Em nenhum momento nos apercebemos que o senhor  era do PSD».


Esta comissão também foi inédita em elogios a uma deputada, que acabou por ser uma das figuras da CPI: Mariana Mortágua, a única representante do Bloco de Esquerda na (já mítica?) sala 6.  Os elogios multiplicaram-se durante as audições e até a Bloomberg a considerou uma «estrela»

Hoje, alguns deputados também destacaram o papel da comunicação social, que ajudou a esclarecer melhor os portugueses sobre o colapso do GES e do BES.

Agora é tempo de folhear as 400 páginas do relatório preliminar com atenção. Os deputados têm até dia 23 de abril para propor alterações. A discussão e votação final será a 29 de abril. Fechar-se-á um capítulo. E poderá começar logo outro, uma vez que a matéria de natureza potencialmente criminal que foi apurada na comissão será encaminhada para o Ministério Público. Aí, as contas e as responsabilidades serão feitas na justiça.