Pela última vez enquanto Presidente da República, Cavaco Silva sobe no sábado ao púlpito da Assembleia da República para mais um discurso do 25 de Abril, ao fim de 10 anos de apelos, alertas e reflexões sobre o país.

Palco de algumas das suas mais marcantes intervenções desde que chegou a Belém, em 2006 o parlamento ouviu Cavaco Silva falar das desigualdades, propondo um "compromisso cívico" alargado para o seu combate.

Um ano depois, os jovens estiveram no centro do discurso, com o pedido do Presidente da República para que não se resignassem e apelos à união de esforços dos políticos a favor da "qualidade da democracia". Em 2007, Cavaco Silva sugeriu ainda que se repensasse o modelo de comemorações do 25 de Abril, questionando se não estariam a "converter-se num ritual que já diz pouco" aos cidadãos.

Já em 2008, Cavaco Silva falou sobre a "notória insatisfação" dos portugueses com o funcionamento da democracia, mostrando-se "impressionado" com a ignorância de muitos jovens sobre o 25 de Abril e o seu significado.

Em 2009, a meses da realização das eleições europeias, legislativas e autárquicas, o chefe de Estado centrou a intervenção em dois temas: a crise e a participação cívica.

Quase em jeito de antecipação dos problemas que o país viria a atravessar, Cavaco Silva defendeu que a crise não podia ser "iludida" e alertou para a incerteza de Portugal estar a viver "um momento meramente transitório" de recessão económica e falando em "tempos difíceis, muito difíceis".

A 25 de Abril de 2010, o Presidente da República deixou duas mensagens essenciais: "Os portugueses perguntam-se todos os dias: para onde é que estão a conduzir o país? Em nome de quê se fazem todos estes sacrifícios?", questionou.

Retomando o discurso de 2006, o chefe de Estado deixou também uma chamada de atenção para a persistência de desigualdades sociais e, sobretudo, de "situações de pobreza de exclusão que são indignas da memória dos que fizeram a revolução de Abril".

Em 2011, as comemorações transferiram-se do Palácio de São Bento para o Palácio de Belém, numa cerimónia inédita que juntou os quatro Presidentes da República eleitos no período pós-revolução: Cavaco Silva, Jorge Sampaio, Mário Soares e Ramalho Eanes.

Falando poucas semanas depois de ter convocado eleições legislativas antecipadas, na sequência do pedido de demissão do primeiro-ministro José Sócrates, Cavaco Silva defendeu que a palavra tem de ser devolvida ao povo quando a democracia está numa "encruzilhada" e apelou à responsabilidade dos partidos para atuarem com verdade num "tempo de sacrifícios" e "interrogações".

O Presidente da República falou ainda da necessidade do Governo ter "apoio maioritário" no parlamento - o que acabou por se concretizar através do Governo de coligação PSD/CDS-PP - e apelou a um "esforço de concertação" entre o executivo e os partidos mesmo antes das eleições para obtenção da ajuda externa.

"Concertação" foi palavra repetida por Cavaco Silva no discurso do ano seguinte. Considerando "essencial" assegurar a coesão nacional, o chefe de Estado alertou que tal exige um esforço permanente de diálogo e concertação entre o Governo, oposição e parceiros sociais, num tempo em que "a verdade dos tempos difíceis" já era "reconhecida por todos".

Ao fim de mais dois anos de sacrifícios impostos pela crise, em 2013 o Presidente da República admitiu ser indiscutível a existência de "uma fadiga de austeridade" entre os portugueses e avisou os responsáveis políticos que precisavam de atuar num horizonte mais amplo do que os calendários eleitorais, insistindo na necessidade de consensos.

Estabelecendo o combate ao desemprego como uma prioridade da ação governativa, Cavaco Silva admitiu ainda que alguns dos pressupostos do programa de assistência financeira não se revelaram ajustados à realidade.

No ano passado, os desafios do futuro voltaram a ocupar parte da mensagem presidencial, com o chefe de Estado a alertar que "não se esgotam na dimensão orçamental".

Este ano, a menos de seis meses das eleições legislativas, Cavaco Silva poderá ainda reaproveitar parte do discurso de 2014, quando recusou "a política de vistas curtas" ditada pelos taticismos, insistindo na necessidade de entendimentos políticos sobre as questões essenciais para o futuro do país.