Marisa Matias, eurodeputada eleita pelo Bloco de Esquerda, confessa-se «incomodada e envergonhada» com as declarações de Marinho Pinto sobre os salários dos eurodeputados. A deputada bloquista assegura que «há várias coisas que ele diz que são erradas e que faltam à verdade».

«Se o Dr. Marinho Pinto fica com o dinheiro é com ele e com a consciência dele. Há quem não fique. Eu não fico», assegura Marisa Matias, em declarações ao tvi24.pt.

A eurodeputada conta que, desde que foi para o Parlamento Europeu, parte do seu salário vai para outras «atividades que queremos financiar». Entre elas, está a Finance Watch, uma instituição sem fins lucrativos cuja missão é «fortalecer a voz da sociedade na reforma da regulação financeira». Mas Marisa Matias dá ainda como exemplo o pagamento de viagens de estudantes carenciados que vão em visita de estudo ao Parlamento Europeu e não têm dinheiro para as deslocações. Parte do salário de que prescinde vai também para o próprio Bloco de Esquerda, «que depois o emprega a contratar pessoas».

«Eu, assim como os outros deputados do Bloco de Esquerda que estiveram aqui e outros eurodeputados de outros partidos, recebemos apenas o salário que já recebíamos anteriormente. Não tenho problema nenhum em dizer que ganho 2400 euros limpos, que era o salário que já tinha anteriormente. E, no final do ano, ainda pago impostos sobre o salário de que prescindi», revela.

«Fazemos redistribuição de dinheiro que achamos que não nos pertence», sublinha.

«Pseudo-revelação»

A publicação dos recibos de honorários por parte de Marinho Pinto merece também críticas de Rui Tavares, antigo eurodeputado, que se desvinculou do Bloco de Esquerda e fundou o Livre. Quando estava no Parlamento Europeu, Rui Tavares doou parte do seu salário para financiar bolsas de investigação. Sobre as declarações de Marinho Pinto, o dirigente do Livre diz que nada têm de novo.

«São questões públicas e qualquer pessoa que consulte orçamento do Parlamento conhece esses valores. Bastar contar os dias que os deputados vão a Bruxelas para compor valor final. Nestas pseudo-revelações, não faz um striptease de nada. Faz para continuar com roupa», argumenta Rui Tavares.

Ana Gomes, eurodeputada socialista, também não vê novidades nas revelações de Marinho e Pinto. «Não é nada de excecional. É público e notório. Está tudo disponível, qualquer pessoa pode saber», refere Ana Gomes, sem querer tecer maiores comentários.

Já Rui Tavares consegue ver uma revelação: «Revela é uma coisa muito importante e grave: conta como salário seu e rendimento pessoal dele dinheiro que é para despesas de gabinete, não é do deputado. O Subsídio para Despesas Gerais é dinheiro para pagar, se desejar, gabinete de representação no seu círculo eleitoral, telemóveis dos assistentes, se organizar uma conferência ou comprar livros».

Aquilo que Marinho Pinto escreve sobre o Subsídio para Despesas Gerais, merece igualmente contestação da deputada europeia do BE: «Eu não toco nesse dinheiro. É gerido por uma funcionária do Bloco que está aqui e que trata das despesas gerais». «Ele diz que o Parlamento não pede recibos desse dinheiro, mas nós estamos sujeitos a auditorias aleatórias e, se nos calhar, temos de prestar contas desse dinheiro, sim! O Miguel [Portas] foi alvo de uma dessas auditorias e teve de prestar contas desse dinheiro», sublinha Marisa Matias.

«Ainda não trabalhou nada que se visse»

Rui Tavares não poupa também a atuação de Marinho e Pinto como eurodeputado: «desde que foi eleito ainda não trabalhou nada que se visse». «Em vez de falar obsessivamente sobre dinheiro, que mereça o que ganha, faça legislação, cumpra o mandato inteiro. (…) Marinho e Pinto dizia que havia deputados sem tempo estar em Bruxelas e ele é que parece não ter. Ganham bem. Nunca ninguém disse que ganhavam mal. Seria estranho que pudessem desempenhar o seu cargo bem, ganhando mal», sublinha o antigo eurodeputado.


Também Marisa Matias reconhece que os eurodeputados têm excesso de regalias. «Por isso é que estamos aqui desde 2004 e, desde 2004, apresentamos propostas todos os anos para redução dos salários e das regalias dos deputados, assim como para redução das despesas do Parlamento Europeu. Propostas essas que têm sido recusadas sempre, inclusive pelos liberais, grupo a que pertence o dr. Marinho e Pinto», refere Marisa Matias.

«Se Marinho e Pinto se quiser juntar à nossa luta, será bem-vindo», resume a deputada bloquista.