O veredicto sobre quem ganhou os dois debates entre Passos Coelho e António Costa na televisão e na rádio dará pano para mangas até às eleições. Por agora, resta-nos ver que diferenças (ou nem tantas) existiram entre os dois frente-a-frente.

A maioria dos comentadores, incluindo alguns da direita, consideraram que António Costa ganhou o primeiro confronto. A mesma visão foi transmitida pela sondagem, aqui, no site da TVI24.

Esta quinta-feira, nas rádios, as primeiras impressões apontam para uma ligeira vitória de Passos Coelho. 

Há quem diga que não são os debates televisivos que ditam o resultado das eleições, mas pelo menos 3,5 milhões e meio de pessoas viram o primeiro frente-a-frente. Estima-se que o round 2 possa ter sido ouvido/visto pela Internet por um milhão. 


Que diferenças?


Não houve Sócrates. Nem uma vez. Se Passos Coelho referiu o nome do ex-primeiro-ministro mais de 10 vezes no outro debate, tentando colar Costa aos pressupostos da governação anterior, agora a sombra não existiu.

Nas três televisões, que transmitam pela primeira vez, juntas, um duelo entre dois líderes partidários, foram nove os temas discutidos. Desta vez, foram apenas cinco e com mais tempo para cada um.

Segurança Social: até aqui o ataque era sempre do lado do PS ao Governo; agora foi Passos Coelho quis saber em que prestações sociais é que Costa quer cortar 1.000 milhões de euros, conforme vem descrito no documento dos próprios socialistas sobre as implicações financeiras do programa eleitoral.

Educação: o tema ficou de fora do primeiro confronto e, desta vez, como os outros temas resvalaram, também não ocupou muito tempo. Costa criticou a governação PSD/CDS-PP neste domínio, acusando o Executivo de "examinar para eliminar". Passos salientou o trabalho feito e reforçou a importância da autonomia da escola pública.

Europa: apesar de a crise dos refugiados estar na ordem do dia, não foi abordada no encontro da semana passada. Desta vez, foi tema de arranque, com os dois líderes a criticarem a resposta europeia e com Costa a não descartar uma intervenção militar, em última instância. Quanto à posição de Portugal no quadro da União Europeia, Passos não mudava nada e aproveitou para tentar colar o PS ao Syriza. Costa desmarcou-se e assumiu que o partido de Alexis Tsipras teve uma "estratégia errada".

Novo Banco, cuja venda foi adiada esta semana, não entrou no leque de temas desta vez. Outras questões mais laterais às legislativas, como Presidenciais ou casos de Justiça que envolvem personalidades políticas, também não foram comentados.


As semelhanças


Segurança Social, e sobretudo as pensões, era um tema inevitável nos dois confrontos e que, de resto, em marcando a atualidade há meses, desde que o Governo anunciou um corte de 600 milhões de euros, que nunca acabou por explicar. António Costa voltou a insistir hoje que esse é o objetivo do Governo e Passos voltou a negar.

E claro, os impostos e o (des)emprego, duas das maiores preocupações dos portugueses. No primeiro caso, Costa continua a prometer baixar não só os impostos para a classe média, como também o IVA. Passos promete algum alívio fiscal, mas mais demorado e gradual, rejeitando poder baixar o imposto sobre o consumo. 

Já quanto ao mercado de trabalho, a criação de emprego é uma das bandeiras do programa eleitoral socialista. O secretário-geral classifica-o mesmo como a "causa das causas". Passos Coelho, por sua vez, diz que já estão a ser criados postos de trabalho. E é para continuar o mesmo modelo, com base nas reformas já feitas.

Na troca de argumentos sobre quem pode gerir melhor o país, surgiu nas duas ocasiões, o exemplo da dívida. Costa congratula-se por ter reduzido a de Lisboa, quando esteve à frente da câmara, acusando Passos de não ter feito o mesmo à frente do Governo. O ainda primeiro-ministro diz que foi o Estado que ajudou a autarquia a aliviar a dívida, quando lhe comprou os terrenos do aeroporto. O debate aqueceu e as acusações subiram de tom. 

Foi a última vez que o líder da coligação Portugal à Frente e o secretário-geral do Partido Socialista estiveram sentados frente-a-frente a discutir o futuro do país e a repetir as suas promessas e mensagens eleitorais. Sempre muito acompanhados pelo passado. No próximo dia 4 de outubro, os portugueses esperarão que se abra um porta para o futuro.