O sorteio ditou que fosse António José Seguro o primeiro a responder a Judite Sousa no debate de estreia sobre as Primárias do PS e entrou logo a atacar António Costa.

O debate AO MINUTO

«António Costa foi desleal e traiu uma cultura que existe há 40 anos no partido socialista. Assinou um acordo comigo no ano passado e teve antes duas oportunidades para se candidatar à liderança. Na sequência da vitória socialista nas europeias rasgou-o. Violou uma regra e uma cultura do PS», começou por dizer António José Seguro, justificando porque é que tem acusado sistematicamente Costa de deslealdade.

Depois de uma vitória nas eleições autárquicas, nas legislativas e, agora, nas europeias, Seguro resume: «Isto não se faz, é uma enorme responsabilidade», atirou.

Numa palavra: «É traição», reforçou o líder do PS.

António Costa quis responder «com tranquilidade», dizendo que se candidata «por um imperativo de consciência», porque vê o país «num impasse», com um Governo «que não encontra soluções, com uma política de austeridade que fracassou» e porque «hoje muitas famílias e empresas vivem numa situação de enorme incerteza». Judite Sousa lembrou a Costa que a ideia era responder às críticas de Seguro e não dizer porque é que se candidata.

O atual presidente da câmara de Lisboa disse depois que «o PS precisa de responder ao que os portugueses sentem que é o dever» e que esse dever é «afirmar uma alternativa» que não encontra na liderança de Seguro.

Lembrou o «resultado insuficiente para o PS e para o país» das eleições europeias, que motivaram a sua entrada em cena. «Não me revejo na leitura triunfalista» da direção do PS. «Trairia a minha consciência e a expectativa socialista» se não avançasse, repetiu Costa, recusando uma «posição cómoda».

Na resposta, Seguro socorreu-se das estatísticas, mostrando que nas sondagens para as legislativas o PS tinha mais de 36% das intenções de voto antes da «crise» motivada por António Costa. «Nós dobrámos os valores daquilo que era o PS quando eu liderei o PS», reforçou.

«Porque é que não te candidataste há três anos?»

A certa altura, Seguro dirigiu-se diretamente a Costa, com o dedo levantado e tratando-o por «tu», lembrando a «solidariedade» que sempre houve no partido, até agora: ««Não foste solidário com o teu partido e com o líder do teu partido», disse ao adversário.

Na resposta, Costa fez questão de salientar que não tem feito, nesta campanha, qualquer ataque pessoal, «nem respondido a ataques pessoais», mas não pôde deixar de responder: «Nunca conduzi a minha vida no PS numa função calculista». «Só alguém que não tem consciência de qual é o estado do país é que pode achar que ir para o poder (...) é um prémio. Governar Portugal no Estado em que está é uma enorme responsabilidade». «Seria uma leviandade [dizer que se vai] fazer caminho fácil e colher um prémio».

Seguro ripostou e começou a interromper Costa, repetidamente: «Há três anos é que era um imperativo de consciência (...) e eras o número dois de José Sócrates».

«Porque é que não te candidataste há três anos?», perguntou Seguro. António Costa esquivou-se a responder e disse que o que os portugueses querem ouvir é «o que temos a dizer relativamente ao problema de agora».

«É incómodo», atirou Seguro. «Pela primeira vez a seguir ao 25 de Abril el em 40 anos de democracia, o líder que ganha [três eleições] é contestado. Ninguém compreende isso. Já reparaste o que conseguiste com a tua atitude?».

Costa respondeu: «Não tenho incómodo nenhum. (...) há um equívoco na leitura que fazes das europeias. Toda a gente percebeu que dificilmente o PS» ia chegar a algum lado. «Se tivesse tido um resultado como eu desejava que tivesse tido, com convição, evidentemente que não teria feito isto [avançado]. Senti que as pessoas reclamavam no PS um suplemento de confiança».

*Com Carmen Fialho, Aline Raimundo, Manuela Micael, Sofia Santana e Verónica Ferreira