O secretário-geral do PCP recorreu hoje à imagem de «afilhado pobre a visitar a madrasta rica» para descrever o encontro da véspera do primeiro-ministro português com a chanceler alemã, Angela Merkel, no debate quinzenal no Parlamento.

«Merkel disse-lhe "saia pela porta das traseiras, pela da frente, limpa, suja cautelar, seja que porta for, tem o nosso apoio"», ironizou, Jerónimo de Sousa, dizendo-se certo de que «o caminho já está traçado, tendo em conta as regras, os espartilhos, impostos em termos europeus».

Para o líder comunista, foi como que o «afilhado pobre a bater à porta da madrasta rica», algo que considerou não ficar bem ao líder do executivo de Portugal, faltando-lhe «brio patriótico».

A imagem foi utilizada já depois de Passos Coelho ter esgotado o tempo para a sua intervenção, na qual discorreu sobre o último prefácio dos Roteiros do Presidente da República, e a necessidade de dar explicações às instituições europeias e aos credores em virtude dos empréstimos contraídos.

«Enquanto não pagarmos 75%, temos de dar explicações aos credores, o que não quer dizer um regime trimestral de avaliações como até aqui, no programa de assistência económico-financeira», adiantou o primeiro-ministro, numa «opinião» sobre o texto de Cavaco Silva, no qual o Chefe de Estado falou de um país com supervisão, pelo menos, até 2035.

Passos Coelho, recordou também o Tratado Orçamental, segundo o qual os Estados-membros «devem corrigir os seus desvios acima do rácio de 60 por cento da dívida», nem que seja «a um ritmo de 1/20 por ano», pois «se existe um esforço muito grande, tem de demorar mais».

«A troika é credora de quase 78 mil milhões de euros que emprestou a Portugal. Enquanto subsistir mais de 25% do total dos empréstimos que tiverem sido outorgados, os credores têm o direito de saber se o país em causa está em condições de cumprir as suas obrigações. São as normas adotadas pela União Europeia», disse o líder do executivo da maioria PSD/CDS-PP.

Jerónimo de Sousa lamentou que Passos Coelho nada tenha adiantado sobre uma sua questão, relativa «àquilo que vai mudar para os portugueses com o propalado novo ciclo de mudança», e alertou para o facto de o Presidente da República subestimar «o povo», que ditará o fim da austeridade e não irá tolerar «essa pena prolongada de 20 anos», de «continuar a apertar o cinto até 2035».

Já o partido ecologista «Os Verdes» pediu a saída «limpinha» do Governo «daqui para fora», acusando o primeiro-ministro de definir uma trajetória de «empobrecimento dos portugueses».

«Que condições são necessárias para que se reponha aquilo que se retirou aos portugueses, designadamente ao nível salarial?», interrogou Heloísa Apolónia.

Na resposta, o primeiro-ministro diz que a «responsabilidade» separa a política do Governo das propostas do partido ecologista.

«Porquinho mealheiro»

O Bloco de Esquerda (BE) acusou o Governo de tratar os funcionários públicos como um «porquinho mealheiro», criticando também o setor da banca que, diz a coordenadora Catarina Martins, «tem feito dos contribuintes parvos».

«A posição do primeiro-ministro sobre a ADSE é bem clara: não é preciso mais dinheiro para a ADSE, que até está equilibrada, mas pode vir a ser. É portanto um imposto como dizíamos e os funcionários públicos são tratados pelo Governo como um porquinho mealheiro», declarou a bloquista dirigindo-se ao primeiro-ministro no debate quinzenal no parlamento.

Catarina Martins dedicou a maior parte da sua interpelação a Passos Coelho a uma notícia veiculada pelo Diário Económico na terça-feira, onde o jornal fala da possibilidade de os bancos poderem retirar do balanço alguns ativos e colocá-los «num veículo ou numa sociedade».

«Se há alguém que tenha tal intenção no Governo não tenho conhecimento dela. Não consta do programa do Governo, não foi matéria que tivesse sido discutida. Ignoro do que se trata», declarou o primeiro-ministro.