Antes do debate quinzenal desta quarta-feira, inevitavelmente marcado pela tragédia dos incêndios, a Assembleia da República expressou um voto de pesar pelas vítimas dos fogos de 15 e 16 de outubro. "Não podemos ficar de braços cruzados". Foi o Presidente da AR, Ferro Rodrigues, quem leu o voto, estendendo-o às famílias e amigos das vítimas, aos autarcas, aos bombeiros e demais estruturas da Protecão Civil. Foi aprovado por unanimidade pelos partidos políticos e os deputados fizeram um minuto de silêncio em memória das vítimas. Todos fizeram declarações manifestando pesar e solidariedade, mas também assumindo que o Estado falhou e que isso não pode voltar a acontecer. 

O próprio partido do Governo, representado pelo líder parlamentar e presidente do PS assume que "nada pode ficar como antes". Carlos César repetiu o que António Costa já tinha dito na reação à tragédia do último fim de semana, acrescentando que tem "a certeza" de que não ficará.

Grande mágoa por verificarmos da pior forma que situações com a perigosidade e terríveis consequências que suportamos não foram eficazmente prevenidas ou evitadas. O Estado, o Governo, os serviços públicos não podem mais voltar a falhar"

Depois de o assumir, e numa altura que já se sabe que o CDS vai lançar uma moção de censura ao Governo, pediu que não haja "disputas sem nexos" e combate partidário de aproveitamento político. Pediu "confluências mais ativas e construtivas".

O maior partido da oposição, o PSD, foi o último a expressar-se e aquele que demorou menos tempo. O líder parlamentar Hugo Soares manifestou "muita, profunda indignação". Disse que o objetivo era "não ficarmos na história por aqueles que nada fizeram", mas tal não se verifica. 

Sabemos hoje que já ficámos na história por termos falhado".

Da parte do CDS-PP, Telmo Correia sublinhou que "só quatro meses depois" ter voltado a repetir-se uma tragédia semelhante à de Pedrógão, com 107 mortos num único ano civil, não é um facto "indiferente".

Desta vez, todo o país foi Pedrógão Grande. Todo Portugal foi Pedrógão Grande. [O que aconteceu é] fruto de fatores extremos, mas também fruto de falhanço do Estado"

Pedro Filipe Soares, do Bloco de Esquerda, disse que "o Estado falhou aos seus e quando isso acontecer nenhum nem nenhuma de nós pode dormir em paz".

A exigência é saber se estamos ou não à altura do que exigem de nós. Passar para lá do jogo partidário corriqueiro, dos relatórios que não saem do papel, das leis que não são cumpridas"

Pelo PCP, João Oliveira disse que esta "tragédia soma-se à catástrofe" de junho e exigiu "urgência  na resposta pronta e eficaz às vítimas, com "imediato apoio e assistência" e um cabaz esclarecimento", incluindo quanto a "responsabilidades criminais". Deixou ainda uma farpa à direita.

Lamentamos que PSD e CDS não tenham permitido respeito pelo luto nacional"

Heloísa Apolónia (Os Verdes) afirmou que é preciso ter "consciência de que é preciso fazer muito para que nada de semelhante volte a ocorrer"

Muitas coisas no papel, muitas soluções empreendidas no papel. É preciso passá-las para o terreno".

André Silva, do PAN, disse que estamos perante uma "dura lição de realidade sobre várias décadas de desleixo com a nossa floresta".

 Precisou de devastar vidas e negócios para acordar a classe política. Há mudanças profundas que todos, todos precisamos de realizar"

O primeiro-ministro agradeceu os votos de pesar de todos os partidos e disse associar-se a todos eles. E que é preciso associar as palavras às palavras de resposta imediata. 

A pergunta não é já hoje o que fazer, mas como agir"