O Governo e o Partido Socialista levaram esta quarta-feira para o debate quinzenal argumentos de campanha eleitoral. Do lado o PS saíram acusações de utilização do discurso de “medo” e de previsibilidade. Ora, do lado do Governo, Passos Coelho até agradeceu o “insulto” “previsível” de Ferro Rodrigues e tomou-o como um elogio.

"Prefiro sinceramente ser muito previsível do que regressar aos tempos da imprevisibilidade e da incerteza", disse Passos Coelho arrancando das bancadas da coligação um forte aplauso e fazendo alusão ao discurso já habitual de que foram ações socialistas que levaram à chegada da troika.


Ferro Rodrigues contrapôs e lembrou que já em 2010 e 2011 o PSD ajudou à “criação de condições políticas” para que a Troika fosse chamada a Portugal. Seguiram-se argumentos sobre a celebração da saída da troika, com Passos Coelho a defender que "todos os portugueses comemoram" a saída dos credores, e Ferro Rodrigues a lembrar que só é possível comemorar quando a coligação abandonar o Governo, dada a política assumida do Executivo de ir “para além” do programa de ajustamento.

Passos Coelho, previsível, voltou a lembrar a herança socialista, mas desta vez em jeito de aviso para o futuro. “Sim, é possível continuar este caminho, o caminho que não precisamos de ter é o caminho que os senhores propõem”. Ferro Rodrigues respondeu com discurso ensaiado.

“Senhor primeiro-ministro, os apelos ao medo, os apelos à irracionalidade, os apelos à imponderabilidade é aquilo que os senhores querem fazer desta campanha eleitoral, não nos conseguiram levar para isso. Os senhores têm uma total indisponibilidade para um debate sério”, disse.


O Governo, que criticou não só as propostas socialistas como o facto de serem apresentadas a conta-gotas, levou ao debate quinzenal uma medida, anunciada na terça-feira, e que levou Passos Coelho a anunciar que está “convicto” de que todos os portugueses vão ter médico de família até final do ano. A medida é um contrapondo a uma das causas apresentada pelo PS, também esta quarta-feira, que prevê que meio milhão de portugueses passem a ter esta cobertura de médico de família. A realidade dos últimos dados aponta para que 1.2 milhões de portugueses continuam sem ter médico de família.

O primeiro-ministro endureceu o discurso contra o PS e acusou os socialistas de quererem crescer à custa do consumo e de prometer "milagres" aos eleitores. Passos Coelho, na parte final do debate, foi mais longe e considerou que uma inversão nas medidas do Governo "conduzirão sempre o país ao desastre" e voltou a questionar o cumprimento das metas europeias.

"Se é possível, cumprindo as regras, acabar com os cortes, com as medidas extraordinárias, pôr a economia a crescer mais depressa, ter o Estado a encaixar mais receita, ter mais emprego gerado com essas medidas, porque é tão estupido o Governo que lá está, que quer perder as eleições e não faz isso tudo?", questionou.


Sobre o cenário do PS para a década, o primeiro-ministro não poupou nas críticas. "Não sendo uma Bíblia, foi apresentado por doze apóstolos e parece que faz milagres. Mas não há milagres na economia, nem nas finanças públicas. Os portugueses hoje sabem isso muitíssimo bem", acrescentou.

O ataque aos socialistas foi cerrado com o PSD, através de Luís Montenegro, chegou a comparar o PS ao Syriza, apelidando as medias do PS de “milagre das rosas”, considerando que o PS é "versão portuguesa do conto de crianças" - expressão que Passos Coelho tinha utilizado para comentar o programa do Governo grego.

"Vejam bem, em meia dúzia de dias, o PS já prometeu baixar o IVA, baixar o IRS, baixar a Taxa Social Única, voltar às 35 horas, repor os feriados, subir o salário mínimo nacional, desfazer todas as reformas estruturais e, claro, lançar já as bases para o regresso de um novo programa de investimento público desenfreado. É isto que o PS tem dito ao país nos últimos dias", declarou.


O PS não teve mais a palavra durante o debate quinzenal e o “discurso do medo previsível”, segundo PS, ficou sem resposta. O ataque mais feroz ao Governo saiu, desta vez, de Jerónimo de Sousa que acusou o Governo de aprovar “à socapa” um perdão fiscal ao Novo Banco. As criticas foram seguidas por Catarina Martins e Heloísa Apolónia e levaram Passos Coelho a admitir a alteração.