O líder do PCP voltou púlpito dos discursos, no segundo dia de debate do programa de Governo, assumindo as diferenças com o PS e advertindo os constrangimentos internos e externos que poderão pressionar o Governo. Ao mesmo tempo, destacou a “vontade” que encontrou nos socialistas de querem mudar para melhor o estado do país.

“O programa que Governo PS afirma-se a vontade de inverter o rumo das políticas dos últimos anos e propósito da mudança que desejamos que a vida confirme. Este não é naturalmente o nosso programa”, nem isso seria “exigível”, defendeu, dadas as diferenças programáticas entre os dois partidos.

“Mas é um programa que acolhe contribuições do PCP e que resulta de uma convergência para encontrar respostas a questões premente. É a valorização da convergência que continuamos séria e empenhadamente a desejar”, afirmou.

Apesar dossp. Jerónimo de Sousa também admitiu que a estratégia do seu partido, se fosse Governo, seria diferente:

 “Não iludimos diferenças, nem omitimos a visão distinta na resposta a contradições latentes na realidade portuguesa, nomeadamente nas que têm a ver com promover o crescimento económico robusto, com a criação de emprego e mais investimento, no quadro de constrangimentos internos e externos que são a nosso ver colete de forças na prossecução de objetivos e da realização de um desenvolvimento soberano”


São conhecidas as diferenças ideológicas do PCP em política externa, no quadro da União Europeia, por exemplo, mas o secretário-geral comunista quis sublinhar que “o passo que agora se dá é um passo importante, para travar a ofensiva mais desenfreada destes anos”. Derrubou-se a direita. Para os comunistas, era a primeira coisa para fazer.
 
“Esperamos e desejamos que seja um safanão na política das inevitabilidades que cerca a vida dos portugueses. Esta é uma solução para a qual ninguém prescindiu da sua independência ideológica, política e programa, mas mútua garantia para país de outro rumo”, vincou.

Por isso, e mesmo não havendo dúvidas de que PCP chumbaria a moção de rejeição que será apresentada por PSD em coordenação com o CDS – não só porque os acordos firmados à esquerda preveem isso mesmo, mas porque seria a atitude mais natural dos comunistas – Jerónimo fez questão de dizer: “Rejeitaremos a rejeição. A nossa resposta é inequívoca: votaremos contra. Votaremos contra porque queremos manter aberta a janela da esperança que a luta dos trabalhadores e populações abriu”.
 

"Não será fácil nem simples"
 

Com um discurso prudentemente otimista, Jerónimo antecipou que o “compromisso” à esquerda “abre a possibilidade”, entre outros, de dar passos na devolução de rendimentos, valorizar salários e pensões, restituir parte das condições sociais, feriados, melhorar a saúde, educação, reverter processos e concessão de empresas de transportes.

“Estaremos com seriedade e sinceridade na valorização da convergência , o nosso principal compromisso é para com o povo. O povo não exige, nem quer tudo de uma vez só. Mas também não quer que se mude alguma coisa, para ficar tudo na mesma. Os tempos que temos pela frente são de grande exigência, mas também de grande confiança”, lembrou. Foi, de resto, recorde-se uma “alternativa de confiança” que António Costa prometeu na campanha eleitoral.

Jerónimo assume que “não será fácil nem simples” governar dado o estado do país, mas “hoje nada pode iludir possibilidade real de tomar decisões”  e que está “aberta nova uma fase para responder aos interesses mais imediatos do trabalhador e do povo”.

O Governo tem reunidas condições para uma “solução duradoura”. Já PSD e CDS-PP “ambicionam continuar agora na oposição a imagem de iminente catástrofe do país, resultado das eleições e antecipam apocalipse. Visam provocar o medo e contribuir para pôr país ainda mais no fundo”. “Um azedo mau perder”, nas suas palavras. 


"Temos de aprofundar acordo"


Da parte do Bloco de Esquerda, Pedro Filipe Soares considerou que o Governo que entra agora em funções "ganha legitimidaee" com a maioria de deputados e que a moção de rejeição do programa de Governo será apenas um mero "epitáfio".

"Não é a moção que via marcar o debate. Não é apresentada por convicção, mas conveniência. Para clarificar a posição de PSD e CDS? Não, para clarificar posição de PS, BE, PCP e PEV. Não é um ato de afirmação é um epitáfio que querem colocar na lápide do governo de Passos e Portas"


O deputado bloquista considerou que ambos foram"desamigados pela maioria dos eleitores e não se conformaram com o assunto". Não foi o primeiro a recorrer à grandeza dos números para elucidar Passos e Portas, ao dizer que "122 será sempre maior que 107".

Por outro lado, assumiu que é preciso aprofundar o compromisso à esquerda. "O arco da Constituição tem de se sentir na vida concreta das pessoas (...). Temos de aprofundar a dimensão programática do acordo. Não varremos do tapete as matérias difíceis", rematou.