O Orçamento do Estado para 2016 é a batata quente que a governação do país tem em mãos nos próximos tempos e que pode cair sobre o novo Presidente da República. Não há sintonia entre os candidatos presidenciais sobre o que dizer, agora, sobre o documento que gere as contas públicas. O último debate antes das eleições do próximo domingo, na RTP, foi dominado por questões urgentes. E por ajustes de outras contas: os ataques tête-à-tête.

Maria de Belém decidiu cancelar toda a agenda pelo falecimento do histórico socialista Almeida Santos e, como previsto, não compareceu. A nove, depois de questões mais pessoais, o OE2016, que ainda não foi apresentado, entrou em cena.

Perguntou-se a Marisa Matias sobre que posição tem, afinal, sobre a viabilização de Orçamentos, quando há um acordo parlamentar entre o PS, o PCP, Os Verdes e o BE, que apoia. Isto pelo facto de a candidata ter dito que, se fosse Presidente, vetaria o Retificativo de 2015, já aprovado pelo atual Executivo.

Marisa explicou que esse documento tinha “um item, o Banif”. Daí ter sido contra. “Tínhamos possibilidade única de ao fim de seis anos, bater o pé a Bruxelas e dizer às pessoas que não vão pagar mais um banco". Quanto ao OE2016, "há acordos e é preciso que as pessoas tenham a garantia e a certeza que há estabilidade política neste país”.

Em nome da estabilidade política, Marcelo Rebelo de Sousa tem-se colocado ao lado de Costa e mantém. "Ainda hoje o primeiro-ministro, e a meu ver bem, confirmou a meta dos 3% [do défice] e bem também a compatibilização de medidas sociais e não derrapagem financeira. É neste quadro, que eu entendo que o Presidente deve fazer os possíveis e os impossíveis para sair da crise".

Sampaio da Nóvoa tem uma posição diferente sobre o assunto em relação àqueles dois candidatos, mas igual ao que tem defendido. Não quer pronunciar-se sobre um documento que ainda não conhece. "O que direi sempre é que em todos os casos serei um Presidente exigente e que em todas as circunstâncias, seja qual for o Governo, analisarei criteriosamente". 

Já Edgar Silva quis “sossegar” quem pensa que levará decisões ao comité central do PCP, o partido que o apoia. "Serei um democrata, incansável defensor da liberdade e da democracia. O que posso garantir é empenho para que os compromissos assumidos [pelo Governo] sejam para cumprir".
 

Contas de 35 horas e de uma vida


"Vergonha". Foi assim que Marisa Matias classificou a decisão fresca do Tribunal Constitucional que devolve aos políticos o direito às subvenções vitalícias. Sublinhou, sem nomear, que "vários apoiantes" de Marcelo, Nóvoa e Maria de Belém assinaram o documento que pediu ao TC a fiscalização. Maria de Belém não esteve presente e certamente teria sido confrontada com o facto de ela própria ter subscrito o pedido para travar o fim das ditas subvenções.

O regresso dos funcionários públicos às 35 horas semanais - promessa ainda não cumprida que já levou pré-aviso de greve - levou Edgar Silva a atestar o "direito legítimo" da administração pública em convocar a paralisação.

A Marcelo Rebelo de Sousa não foi perguntado o que pensava sobre a greve, mas apoiou o regresso da função pública à antiga contabilização semanal, até porque se trata de um “compromisso eleitoral”. Com uma nuance: desde que isso não se traduza em derrapagem financeira. 

Tanto Vitorino Silva como Cândido Ferreira defenderam igualdade: ou é 35 horas para público e privado ou é 40 horas para público e privado. Já Paulo Morais colocou a tónica no trabalho por objetivos e resultados, sem tomar partido de uma ou outra solução em concreto.

Henrique Neto, por sua vez, embora tenha “dificuldade” em entender que uns portugueses beneficiem e outros não, concorda por ser um “direito adquirido”.
 

Contas de outro rosário


Neto foi, de resto, o primeiro a abrir as hostilidades. Não só literalmente, porque foi o primeiro a falar, mas porque inaugurou - e em força – uma série de ataques pessoais entre adversários, a maioria incidindo sobre Marcelo Rebelo de Sousa. Que é, de resto, o candidato que vai à frente nas sondagens com possível vitória à primeira volta.
 
"Sampaio da Nóvoa enrolou, enrolou. Marcelo Rebelo de Sousa seguiu a mesma escola e lavou as mãos tal como Pilates. Temos candidatos que, objetivamente , devo dizer que a mentira faz-se por ação e por inação", atacou Henrique Neto, a propósito, lá está, do Orçamento do Estado.

E continuou: "Estas eleições têm vindo a demonstrar isto: que os candidatos do sistema são aqueles que claramente dizem que são independentes, mas têm sido apoiados pelos partidos, que não dizem o que pensam". 

Marisa Matias recusou entrar naquele filme, dizendo que não havia “um único candidato” que não tenha estado envolvido em partidos. Foi corrigida e depois corrigiu: Jorge Sequeira não tem esse histórico. E lembrou que todos os Presidentes da República, até hoje, tiveram apoios partidários. "Somos todos cidadãos, somos todos independentes. As portuguesas e os portugueses têm de saber o que pensamos em relação às questões de regime".  

Novo Presidente, novo tempo? O “tempo novo” que Sampaio da Nóvoa tem no seu slogan tem servido de leva e traz entre o candidato e Marcelo Rebelo de Sousa. O ex-reitor foi questionado sobre o assunto e disse que "não é um tempo de uns contra outros", mas sim "em que todos contam".

Antes, os gastos de campanha já tinham merecido um esclarecimento de Marcelo Rebelo de Sousa sobre as declarações que tem proferido em relação aos donativos e custos da campanha de Nóvoa. Recusou tê-lo criticado, disse que "respeita", mas que não fez o mesmo. Também sublinhou o facto de, nestas presidenciais, haver mais contenção em todas as candidaturas do que noutras do passado.

O adversário partiu ao ataque, na contra-resposta. “As primeiras declarações que Marcelo Rebelo de Sousa fez foi dizer que era um escândalo o que se ia gastar nas campanhas. Agora elogia a postura de contenção. Acho que não é boa esta permanente incerteza sobre o que se diz e a mudança sistemática de posições". 

Os jornalistas confrontaram-no com uma aparente contradição, esta recaindo sobre si mesmo. A alegada posição suprapartidária vs. a presença de grande máquina partidária na sua campanha. Respondeu que não se sente um candidato do PS e que a sua candidatura foi apresentada há muitos meses, pelo que as pessoas tiveram tempo para perceber se queriam apoiá-lo. Venham elas de onde vierem.

O passado de Marcelo enquanto líder da oposição e o serviço militar que não cumpriu também vieram ao de cima, com ataques de Nóvoa e Cândido Ferreira  que, por sua vez, também atacou Nóvoa com a credibilidade da sua licenciatura em Teatro. Também desferiu no ataque a Paulo Morais e à sua declaração de rendimentos atrasada no Tribunal Constitucional, que este desmentiu.

Um Presidente em que lado da barricada? Marcelo Rebelo de Sousa também foi confrontado sobre o que pensa sobre as críticas ao alegado vazio do seu discurso em termos de política e se se sente à esquerda da direita, como já disse na campanha. Respondeu que "por muito que isso desgoste a algumas pessoas" da sua área política, esta eleição "não é uma segunda volta das legislativas". 
 

Contas de rir para desanuviar


Vitorino Silva, mais conhecido por Tino de Rans, foi o candidato que protagonizou os momentos mais descontraídos do debate, arrancando vários risos na plateia. 

Ao contar que fez campanha eleitoral em Bruxelas e que no consulado ninguém atende os emigrantes que querem votar, surgiu a pergunta do jornalista: Quem responsabiliza por isso? "Opa, ponham um telefone, mas ponham uma pessoa a atender o telefone", simplificou. 

Depois, entrou nas analogias futebolísticas. Aos "candidatos de relvado", aqueles que têm tido mais tempo de antena, disse que o Messi é muito bom jogador porque está sempre perto da bola. "O que eu peço é que me passem a bola, para estar perto do golo".

Assumiu estar "a fazer bonequinhos no papel" enquanto os outros falavam, e pediu a Marisa Matias para tratá-la Marisa por "tu", como Cândido Ferreira trata António Costa. 

 Já bastante mais sério, terminou com uma lição política, sobre "a gente com muita história, que tem muito a ensinar aos políticos". Os sem-abrigo. Ontem, ele passou a noite ao lado de um. Na rua.