Há cem anos o Rei D. Carlos foi assassinado no Terreiro do Paço. Com mais de seis livros a assinalar a data, entre uma
biografia do Rei, do historiador Rui Ramos, o atentado explicado às crianças, e uma análise da imprensa estrangeira da época,
destacamos um que se centra noutra parte da história: aquela que se sucedeu ao crime e que envolveu a Justiça portuguesa durante
dois anos.
Uma investigação que coligiu mais de cinco mil peças, entre testemunhos, provas e indícios e que a uma
semana da revolução, que daria lugar à I República, foi mandada arquivar pelo então presidente do Conselho, Afonso Costa.

Não viu a barra do tribunal,
mas também não voltou a aparecer num registo que deixe memória. Quando passam 100 anos sobre o homicídio do Rei e do seu filho
D. Luís Filipe, um crime sem culpados ou detenções, «O Dossier Regicídio - o Processo Desaparecido», um livro redigido por
especialistas em balística, medicina legal, historiadores, e encabeçado por Mendo Castro Henriques, traz a lume documentos
que suportam a tese de que o extravio deste processo foi propositado.
Sobretudo um documento em que Afonso Costa
pede o arquivamento do processo. Senão, «seria a desgraça dos dissidentes», terá afirmado, referindo-se aos monárquicos dissidentes
que o apoiavam e que serão fundamentais na instauração da I República.
Conspiração ou acto isoladoNão
há hoje grandes dúvidas da natureza do regicídio. Mendo Castro Henriques, em entrevista ao
PortugalDiário não tem dúvidas
da conjura contra o Rei.
Entre 1880 e 1914, na Europa e nos EUA, há mais 400 atentados contra chefes de Estado, governantes
e reis, numa onda de violência que culminou no atentado que levará à I Guerra Mundial.
Se muitos foram, de facto,
actos de indivíduos isolados, que participavam do ambiente anarquista, Buíça e Costa, os regicidas mais conhecidos, que perderam
a vida a matar o Rei, não foram os únicos que preparam o atentado.
Mendo Castro Henriques aponta o dedo aos sectores
mais radicais do Partido Republicano que, depois de vários desaires eleitorais, decidem passar para a via revolucionária,
encontrando o seu exército na Carbonária, e com a ajuda de algumas lojas maçónicas, adquirem armas no estrangeiro e financiamento
nos dissidentes monárquicos.
Ultrapassando a história
kitsch das conspirações, o «Dossier Regicídio - o Processo
Desaparecido» concentra-se no processo judicial instaurado a 7 de Fevereiro de 1908, concluído a 27 de Setembro de 1910, mas
desaparecido após a proclamação da I República.
São tratados relatórios, cartas dos juízos e informadores do Juízo
de Instrução Criminal, uma conspiração de que a secreta portuguesa estava também informada, explica Mendo Castro Henriques.
As ameaças de atentados não impediram, porém, que o Rei desse «uma prova de destemor», dispensasse o carro fechado e seguisse
no landau, a passo, sem capota.
Este é um enigma com inúmeras teses que tem apaixonado historiadores ao longo do
último século e que na data do centenário ganha nova vida neste centenário com iniciativas, conferências, exposições e visitas
guiadas.
Os historiadores querem agora lançar os dados sobre as inúmeras teses, tentado fazer agora o julgamento
que não se realizou há 100 anos.
Leia
mais: o filme do momento fatal