Jerónimo de Sousa recordou esta quinta-feira o simbolismo de ter sido um operário na Constituinte, enquanto Helena Roseta procurou explicar "o mistério" que permitiu aprovar, há 40 anos, a Constituição da República, numa cerimónia que homenageou antigos constituintes.

Numa cerimónia de homenagem aos antigos deputados constituintes, hoje no átrio principal da Assembleia da República, Helena Roseta, eleita em 1975 pelo PPD, hoje deputada socialista, questionou "como é que se explica que num ambiente de tanta tensão e confrontação tenha sido possível aprovar um texto que passado 40 anos ainda orgulha todos".

Isto é uma coisa da ordem do mistério. Isto só foi possível porque o 25 de abril fez surgir em Portugal uma energia de esperança de acreditar em metas morais que durante a constituinte estavam acima dos programas partidários", afirmou.

Segundo Helena Roseta, as "metas morais da importância da liberdade, a importância da democracia, a importância da justiça, da fraternidade e da igualdade" estiveram acima dos programas partidários.

Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, recordou o "orgulho de ser um metalúrgico" num espaço que tinha sido até 1975 reservado "ora a doutores, ora a engenheiros" e destacou o contributo de muitos deputados que "não sabiam escrever uma lei", mas souberam transportar para a Lei fundamental o "saber de experiência feito".

A composição da Assembleia rompeu com o preconceito", frisou, elogiando a "Constituição, que, como obra humana, não é perfeita", mas que "não pode ser descaracterizada".

O deputado e antigo constituinte Miranda Calha foi o primeiro a intervir, afirmando a atividade parlamentar como "uma atividade nobre, que deve ser enaltecida" por estar a representar o povo, uma ideia que já tinha sido sustentada pelo presidente da Assembleia, Ferro Rodrigues.

Miranda Calha, tal como Jerónimo de Sousa e Helena Roseta, lembrou o papel dos militares na revolução de 25 de Abril de 1974 e, sobre a Constituição, considerou que já era uma "Constituição moderna", contemplando um conjunto de direitos e liberdades para os cidadãos, incluindo "direitos sociais" próprios do Estado social.

Por seu lado, Jorge Miranda lembrou as "circunstâncias difíceis" e as "condições precárias de trabalho" dos deputados constituintes, que apesar de tudo conseguiram convergir "numa obra coletiva" que expressa o "pluralismo de ideais" e traduz o "espírito humanista" logo no primeiro artigo, o que estatui "a dignidade da pessoa humana".

Antes desta cerimónia, mais de uma centena de deputados constituintes tinha recebido do presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, um "diploma" que lhes confere o título de "deputado honorário".

Depois dos discursos, atuais e antigos deputados, alguns acompanhados pelos filhos e netos, participaram num Porto de Honra, num momento de convívio que serviu também para rever e cumprimentar caras conhecidas, abraços e até para tirar algumas "selfies".