O ar era duro, por vezes triste. Para Constança Urbano de Sousa, houve notoriamente um antes e um pós-Pedrógão Grande. Diz agora a então ministra da Administração Interna que, nessa altura, pediu “insistentemente” para sair, mas António Costa não deixou. Ficou mais quatro meses, “por uma questão de lealdade”.

A relação entre os dois vem desde o Governo no qual Costa foi ministro da Administração Interna, sendo Constança sua assessora. Já o tinha sido do anterior ministro da pasta, Nuno Severiano Teixeira. É assim que chega à Comissão Nacional do PS, é assim que chega ao atual Governo. Com um passado ligado às questões de segurança e justiça, era praticamente uma desconhecida para os portugueses. Já não é mais.

“Este foi o momento mais difícil da minha vida.”

As palavras saíram mais de uma semana depois do fatídico dia 17 de junho de 2017, quando 64 pessoas perderam a vida devido ao incêndio que começou em Pedrógão Grande. Na altura, foi o seu secretário de Estado, Jorge Gomes, a correr para o local e dar a cara pelo Governo. Foi ele o portador das más notícias, mas também foi ele que se emocionou com o abraço do Presidente da República quando se começava a perceber a dimensão da tragédia. No meio de toda a confusão e tristeza, sobressaiu então aquele gesto, aquele rosto de humanidade.

A então ministra surgiu horas depois, já com o primeiro-ministro António Costa ao “comando” das operações. As informações prestadas aos jornalistas nem sempre correram bem – chegou a baralhar-se com o nome das aldeias evacuadas perante as câmaras -, mas foi visível a resiliência – foi a única que se manteve sempre no terreno. Ficou até o fogo estar apagado.

“Um comandante nunca abandona os seus homens" [Constança Urbano de Sousa, 21 de junho de 2017, na RTP3]

O ar era duro, lá está, mas por vezes triste. Ao lado de Marcelo Rebelo de Sousa, emocionou-se perante os bombeiros, quando se ficou a saber que uma das vítimas mortais era Gonçalo Conceição, o bombeiro de 40 anos que morreu a tentar ajudar outros a fugir. O gesto, o rosto de humanidade chegou. 

Como já tinha chegado em março de 2016, quando Contança Urbano de Sousa abraçou os pais de um agente da PSP assassinado há mais de dez anos e a quem estava a ser atribuído um louvor a título póstumo. 

Apesar de tudo, eram tempos mais fáceis para Constança Urbano de Sousa. Foi antes de os militares da GNR lhe virarem as costas devido ao novo estatuto, vetado antes por Marcelo, foi antes dos incêndios do ano passado, quando demorou vários dias a aparecer. Uma revista "apanhou-a" numa festa no Algarve e a polémica rapidamente se espalhou. Uma ministra de férias enquanto os portugueses viam, por exemplo, as imagens da Madeira a arder?

“Todos os dias há qualquer coisa por resolver, nem que seja pelo telemóvel. Uma ministra nunca está de férias”, justificou, na altura.

Este ano não houve férias. Por causa de Pedrógão, por causa de um verão anormal em termos de condições atmosféricas e incêndios, e agora até por causa de um outono devastador. A 15 de outubro, morreram pelo menos mais 41 pessoas no Norte e Centro do país. Portugal é notícia lá fora pelas piores razões. Mais uma tragédia, mais um peso em cima dos ombros da ministra.

“Para mim seria mais fácil, pessoalmente, ir-me embora e ter as férias que não tive, mas agora não é altura de demissões.”

A frase pretendia, supomos, mostrar força, mas retirou-lhe a pouca força que tinha perante a opinião pública. O primeiro-ministro ainda tentou, mas a pressão do Presidente da República foi muita e Constança Urbano de Sousa abandonou mesmo o Governo

Sai em plena mudança no SEF, após ter demitido Luísa Maia Gonçalves. Sai ouvindo críticas pela nova Lei da Imigração. Sai poucos dias depois das forças de segurança terem saído todas à rua com várias reivindicações. E sai, mais de 100 mortos depois.